Minorias

Priscila Miranda Priscila Miranda 682x1024

Nasci minoria… sem escolha, sem chance, sem opção.

Como primogênita menina, já poderia ter sido descartada, pois, em muitas épocas, o primeiro que contaria seria o filho homem da família, o herdeiro.

Nasci mulher já recebendo meu rótulo de menor, de frágil, de submissa, de insignificante. Além disso, canhota. Por esse simples motivo, pessoas já foram queimadas em fogueiras. Seria uma bruxa que usa sua esquerda. Também alguém que queria aprender a ler e escrever, queria estudar…inteligência também não pode ter. Sim, são motivos para, em algumas culturas, até hoje, mais uma vez, ser presa, espancada ou morta, porque mulheres não têm direito à educação. Nem a qualquer tipo de protagonismo ou existência sem ter que ser refém de alguém.

Ousei crescer, pensar e tentar questionar. Fui silenciada desde cedo, uma minoria na família, na escola, na igreja… Apenas silêncio, se cale, sorria e acene. Não esqueça de engolir o choro, secar as lágrimas e ser delicada. De preferência arrumada e perfumada, com o bastante para cobrir o cheiro de sangue. Porque não importa se você sangra por dentro. Ninguém quer saber de verdade. E para a pergunta “oi, tudo bem?” ninguém quer uma resposta real. Não adianta ser literal, você aos poucos vai desistindo de tentar, de falar, de demonstrar qualquer reação verdadeira.

Também nasci PCD (Pessoa com Deficiência). Demorou para descobrir, porque, na invisibilidade de ser mulher, a medicina também ignora. Os estudos antigos focavam em coisas do tipo “histeria feminina”. Negligenciadas no plano físico, quanto mais no emocional ou neurológico. Sim, mais uma vez, anos de sofrimento e silenciamento, só para me descobrir parte de mais uma minoria. E apenas tentar resgatar a minha identidade, ter algum conhecimento e entender algumas questões, pois no restante continuo na minoria que sofre julgamentos, capacitismo, falta de empatia de todos os gêneros. Seja de pessoas de longe ou de perto. Seja de desconhecidos ou da própria família.

Nos momentos em que pensava “agora não tem mais como piorar”, sim ainda piora. Tanta decepção e tanta dor no coração que parece que uma vida não é suficiente para tanto. É difícil olhar a situação, desde os exemplos horrendos do passado até hoje, e perceber que tão pouco mudou. Com licença, mas preciso crer em algo. Preciso acreditar que tanta dificuldade e sofrimento não foi à toa. Que tudo isso não foi em vão. Que, para as próximas gerações, ainda restará a esperança de algo melhor. Que acima de tudo haverá alguma justiça. Que minha existência teve algum propósito e me apegar na esperança de dias melhores, pois, sem esperança, desistimos de vez e sucumbimos ao caos.

Que sejamos uma minoria, porém não mais caladas, amordaçadas e ignoradas. Que exista de fato alguma empatia, união, acolhimento entre nós mesmas. E que, juntas, muitas minorias…quem sabe possam ser maioria.

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Autora: Priscila Miranda / @priscilamirandawriter

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