Tempo de leitura: 11 minuto(s)

 

“Seu filho mora com o pai???” Essa pergunta é feita com tanto espanto por algumas pessoas que chega a fazer mal. Eu nunca vi essas pessoas fazendo a mesma pergunta: “Seu filho mora com a mãe???”. Não é pra tanto, como estamos cansadas de saber, a maternidade é imposta para muitas de nós, a lenda urbana instinto materno é algo que muita gente ainda prega, a mãe perfeita, aquela que daria a vida pelo filho, aquela que ama ser mãe, aquela que abre mão dos seus sonhos por causa da maternidade, as “guerreiras”, as famosas mulheres que a sociedade prega como “a santa”, muitas vezes, não quer ser mãe, está cansada da maternidade.

Amamos nossos filhos, mas a imposição de tudo isso, essa pressão, a falta de ajuda e apoio, nos deixa em ponto de bala, a incompreesão chega a níveis altíssimos, a gente fica sem saber pra onde correr, o que fazer e como agir.

Nos grupos de mães, vemos relatos de todos os tipos, mas nunca falamos da mãe que não mora com os filhos, tenho pra mim que mesmo mães, nos julgariam por tal atitude, e o medo de abrir essa conversa e ser apedrejada é maior do que guardar, muitas vezes o medo, a dor, e as angústias pra si.

O texto hoje é sobre essas mulheres, essas que por milhares de motivos não criam diretamente seus filhos, seja eles morando com o pai, com a avó ou com qualquer outra pessoa. Comecei o texto falando da pressão da maternidade porque, por incrível que pareça, mães que não moram com seus filhos também passam, se você é julgada por sair um dia na balada, ou por dar fórmula pro seu filho, ou deixar ele “sem blusa”, porque acham que está frio demais e falam que você é desleixada, relaxada, não cuida da criança, imagina ser olhada por estranhos e julgadas porque você não está morando com seu filho. Sabe aquelas frases “aí deixa o filho com o pai pra poder curtir a vida”, “põe filho no mundo e não quer criar”, e as inúmeras outras que todas nós, já ouvimos pelo menos uma vez na vida? Elas são mais comuns do que se imagina.

Deixar o filho morar com o pai não é uma escolha fácil, diferente de muitos homens, as mulheres que passam por isso, o fazem em momentos de desespero, sem opções, ou porque o pai, ou alguém da familia têm mais condições, ou porque simplesmente não tiveram escolhas. Diferente de homens, as mulheres sofrem julgamento, e o pior de tudo é a culpa, a maternidade compulsória, nos faz acreditar que deveríamos ser as únicas mantenedoras das nossas crias e essa pressão social faz com que nos sintamos mal muitas vezes por não tê-los por perto. Frases como “eu abandonei meu próprio filho”, batem todos os dias na mesma tecla, e dói, mas o que temos de ter em mente é que filho não foi feito por uma pessoa, ele é fruto de dois adultos, que devem arcar com a criação deles, mesmo que longe.

Independente se o filho mora com a mãe, ou com o pai, ambos devem dar assistência e as mães terem consciência que é a mesma coisa se fosse o contrário, você o pega a cada 15 dias, você liga, se preocupa, continua indo em reuniões de escola, dando bronca, compra roupa, compra lanche, passeia. Não devemos esquecer que, mesmo longe, ainda somos mães e que ninguém pode levar o dedo e nos dizer o contrário, porque muitos pais na mesma situação, não fazem metade do que nós, mães que moramos longe dos nossos filhos fazemos.

Pensando em apoiar essas mães e mostrar sua realidade, recebi alguns relatos e histórias de mães que passam ou passaram por essa situação:

Bru Ferreira, 24 anos. Mãe de uma menina e um menino.

“Eu que decidi que eles morassem com o pai, estava desempregada e em depressão profunda não podia ficar com eles naquele momento. Já faz um ano essa separação, agora tá bem melhor, no começo eu chorava muito e me culpava muito tambem. Família era contra, julgava, o ex também julgava e chegou a me difamar no bairro.

Pensei sim em voltar atrás, sentia muita falta, era muita pressão. Mas toda vez que eu pensei em voltar eu lembrava do pq ter me separado. Fui julgada pela familia, amigos e ainda sou. Família e amigos em comum com ele acreditaram nele, então diziam que eu não amava eles, que eu tinha me separado pra me prostituir, que eu não sou mulher não sou mãe de verdade. Sobre a guarda, ela ainda tá sendo resolvida na justiça pq fui casada no civil com o pai deles.

Minha relação com ele é estritamente referente as criancas
Ele tenta a todo custo e fazer voltar, usando as crianças nisso, investiga minha vida, já chegou a me expor na internet. A ultima ele me expôs como prostituta em grupos de whats de pornografia e prostituição.

Sobre a criação, ele se impoe, diz que não sou eu que crio então não tenho com que reclamar. Da ultima vez eu tive que ir ao conselho tutelar, ele tirou as crianças da creche e quem estava cuidando era uma pessoa com problemas de drogas e eu não conhecia.”

Jéssica Souza, mãe de um menino.

“A decisão foi minha. Decidi fazer Faculdade, eu trabalhava em comércio 44horas e não tinha apoio da minha família para cuidar do meu filho, sem falar que sempre tive que fazer mudança de casa pq morava em casa alugada e não sei pq não conseguia me virar com a grana. A adaptação foi péssima, eu chorava muito e não consegui ficar longe do meu filho, mas o fato de estar com o pai dele não era legal. Voltei atrás, voltei pra ele, demorou um ano.
Meus parentes nunca me julgaram que eu saiba, nao dava o direito de ninguém falar de mim eu ja sofria demais por isso, já osm eus amigos me apoiaram.

O pai do meu filho é bem possessivo e por isso sempre jogou na cara que eu escolhi assim, e que na casa dele era do jeito dele. Voltei pq sentia que meu filho não estava em boas condições afetivas e não sorria muito, ai decidi voltar.

Eu me sinto feminista, mas minhas ações não condizem com meus pensamentos e espero aguentar a relação até pelo menos terminar a faculdade. Busquei ajuda pq queria lutar antes contra toda essa tristeza de ser mãe sozinha sem instrução acadêmica que depende da família mas que não recebe ajuda.

Não saio mais com minhas amigas e nem visito meus parentes, tb não faço atividades que ele não esteja junto ou que a família dele não esteja junto, fico em casa lavo, cozinho, passo e não cobro nada, não reclamo, se ele sai e não pergunto.
A vida que lutei tanto pra não ter, eu tenho, mas posso dormir e acordar todos os dias e ver meu filho, levo ele na escola, nas consultas e posso ver ele a todo momento.”

Cah Santos, mãe de um menino.

“Quando engravidei com 18 anos, fui morar na casa do fundo da minha sogra, foi o primeiro neto dela e ainda único, eu tinha 18 anos e ela sempre se prontificou a ajudar…sempre!
Eu sempre trabalhei, estudei então ela passava mais tempo com ele do que eu, óbvio.

Quando me separei, o meu sogro já havia falecido e os outros dois filhos já havima saído de casa, minha ex sogra surtou, ficou doente achando que eu nunca mais ia deixar ela ver ele e eu acalmava, dizia que nada ver que eu jamais faria isso…Enfim, no começo eu tentei fazer com que meu filho ficasse comigo, mas aí ela me ligava no meio da semana pedia pra pegar ele, eu cansada e querendo ficar sozinha, deixava. Aí nos finais de semanas ele tinha mil coisas pra fazer com ela…eu fui deixando, deixando, pra mim sempre foi cômodo, demorei pra assumir que ele morava com a vó, tinha vergonha.

Morria de vergonha dos olhares, dos julgamentos. Minha mãe me falava umas coisas terríveis que me magoavam, mas eu fingia que não ligava. Quando eu caí na real que ele morava com a vó, eu me senti mal. O meu filho está ótimo com a situação, adora o fato de ter três casas.
Ele não quer nem morar comigo, nem com pai. Todos nós damos muito bem e essa sempre foi a vontade dele tb. Sempre falamos abertamente sobre ele se sentir abandonado e ele sempre disse que não se sente assim. Eu deixo claro que quando ele quiser e se quiser ele pode morar comigo e ele diz que tá bom do jeito que está.”

Enfim, precisamos colocar mais esse debate na roda, precisamos ouvir mais e dar espaço para essas mães poderem abrir seus corações. Como foi dito mais acima, essa decisão e a fase dela é bem mais dolosa e difícil do que se fosse o contrário e os motivos nunca são banais ou baseados no que a sociedade acha que deve ser. Somos tão mães quanto aquelas que convivem 24hs com seus filhos e devemos ter em mente que elas não são “sortudas”, ou que os pais são os melhores pais do mundo porque eles fazem nada mais, nada menos que a obrigação que qualquer um dos dois teria, não é ajuda, é dever.

Se você está passando por alguma história assim, tenha em mente que você é a melhor mãe que pode ser, e que seu filho, com muita conversa entenderá o que é melhor pra ele, e pra você também, nunca se esqueça que antes de mãe, você é mulher e que um dia seu sacrifício, um dia, vai valer a pena.

Sobre a autora:

Jo Uyara ou Jo: Mãe, feminista e Idealizadora deste blog.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui