A palavra “mãe” sempre soou como um punhal rasgando minha alma. Mãe era enigma e dor. Como pode alguém que não conhecemos nos doer tanto? Como pode a ausência ser tão presente, a ponto de ocupar todos os espaços da memória? Minha criança interior deve ter lembranças maternas, mas eu não. Nenhum cheiro, nenhum som, nenhum afeto.
Minha mãe faleceu quando eu tinha apenas sete meses de vida. Tão nova, já conheci a dor da separação do elo mais forte que o ser humano pode ter. Provei cedo o amargo gosto da morte e, por isso, me acostumei a ela. A morte tornou-se minha madrasta: embalou meu berço com suas mãos frias, acompanhou meus tropeços sem estender os braços. Mas seguimos juntas, de mãos dadas com a amargura, a solidão, o vazio. Sem colo, sem refúgio, encolhi-me.
Passei a infância me sentindo diferente das demais crianças, porque eu era a órfã — a pobrezinha que não tinha a proteção e o amor maternos. Via os olhares de pena vindos das mulheres, que pareciam prever o que eu enfrentaria sem a bênção e a guarda maternas, em um país tão patriarcal, onde a mulher é desrespeitada desde que chega ao mundo. Sentia revolta. Queria ser “normal”, ter uma família normal. Não queria pena de ninguém — queria ser forte, queria ser admirada. Mal sabia eu que elas tinham razão.
Para fugir dessa realidade, eu fantasiava outros universos. Do alto do escorregador vermelho, olhava o céu e criava mundos: imaginava que minha mãe havia fugido do meu pai e que, um dia, voltaria para me buscar. Afinal, como pode Deus permitir que um bebê cresça sem o afago e o seio maternos?
Eu, que sentia a dor de não ter para quem entregar as lembranças que a escola obrigava a fazer no Dia das Mães, não sabia que aquilo era apenas um preparo para o que estava por vir. Toda violência silenciada, sem ninguém para me proteger nas noites sombrias, sem as asas maternas para me encobrir do lobo.
Depois, a adolescência. A marca da menstruação separando a menina da mulher — e eu não tinha quem me amparasse naquele medo horrível que crescia com o sangue.
Aos poucos, fui esquecendo da falta e me fortalecendo com a dor. Ela, que antes me rasgava, virou armadura — escudo contra a sombra da morte que me acompanhou desde o berço.
A vida, tímida, sorriu para mim. E eu, com sede de alegria, aproveitei aquele sopro de felicidade. Um dia, esse sopro se instalou em meu ventre. E eu me tornei mãe.
Foi então que o medo voltou. Tudo aquilo que não tive, eu teria de inventar ser para alguém. A referência que me faltou, eu teria de encarnar. A palavra “mãe”, que eu havia banido do meu dicionário emocional, retornou com força — não mais como dor, mas como missão.
Quis sentir tudo: cada dor, cada dissabor, cada gota de suor, cada fibra do meu corpo gerando uma vida e trazendo-a ao mundo. Quando seus olhos procuraram os meus pela primeira vez, entendi o que era amor. Entendi o que era vida. Descobri, enfim, o que era ser mãe.
Dali em diante, meu corpo já não era só meu. Ele se dobrava em outro ser. Meu sangue gerava suas veias, meu leite seu sustento. Eu me desdobrei em outra — e ela preencheu a parte que faltava em mim.
A palavra “mãe”, que antes era espinho arranhando meu coração, tornou-se rosa. E floresceu a minha vida.
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Autora: Aline Maria Magalhães / @alinemmo





