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Desde o final de abril ando às voltas com um processo de mudança de apartamento. Era algo desejado para impulsionar desapego, avaliações, faxinas – daquelas que vêm de fora e limpam algo por dentro. Mas eu não sabia que seria tão difícil. Migrar para um espaço menor, faz uma vassoura se transformar em um problema. Afinal, onde guardá-la resguardando o mínimo de compromisso com a estética? A essas alturas, já estou no novo endereço. As coisas mais perto de estar arranjadas. Já consigo rir dos sufocos. Parece que faz um tempão. Mas ainda não acabou.

No meio disso, foi (e é) necessária muita paciência. Estive atormentada pelos meus incômodos. E pelos que considerava que eram vividos por minha filha, embora ela nunca tenha feito comentários ou reclamações. Pareceu entender o desafio. Ou, ao menos, não se importar com ele. Assim, passamos semanas driblando objetos, tropicando em grandes volumes, raspando joelhos em quinas.  Aguardando a solução adequada para esse ou aquele problema de encaixe de coisas que antes tinham um lugar e agora precisam de bom ânimo para estar no mundo.

Com a minha falta de orientação espacial tive, por exemplo, que devolver móveis. No meu pensamento, caberiam muito bem e ficariam lindos. Na prática, nem passaram pela escada e voltaram para o caminhão de entrega sem ser desembrulhados. Na tentativa e erro, as cadeiras se acomodaram bem. Depois de montadas, deixaram como herança, grandes caixas. Uma delas caiu nas mãos da pequena, antes de serem levadas para o espaço de resíduos recicláveis disponibilizado pelo condomínio.

Depois de pensar em várias possibilidades de uso para a caixa, ela pediu permissão para mantê-la conosco. Pedido concedido, descemos com a caixa, supondo que ficaria mais feliz com o espaço do “lá embaixo” do que apertada nas quatro paredes.

Nem bem descemos do elevador, equilibrando o trambolho, ainda em dúvida do que fazer com ele, fomos abduzidas por uma turma de pequenos que brincavam no parquinho. Fomos rodeadas por criaturas que gritavam excitadas e, logo, não detínhamos mais a caixa. Passou para todas as outras mãos num piscar de olhos. E se afastou de nós na função de trem de passageiros.

A filhota fez bico. Mas antes que a sua perda ganhasse outros contornos, vimos a caixa sendo separada em partes para servir de aparato de esquibunda em um barranquinho de grama que margeia os brinquedos. Fez-se festa. De repente, a caixa virou um tesouro de valor inestimável. Evitaria queimaduras e machucados. Permitiria que todos se imaginassem vencendo o Pico Everest.

Até eu me deixei escorregar. Aos gritos. Em meio a muita liberdade e alegria. Vizinhos olharam da janela. Mais crianças chegaram junto. Quem passava de carro dava um aceno de aprovação.

O cenário foi transformado. O sorriso tomou conta da tarde. Qualquer ruga na testa se desfez. Fomos engolidos pelo brincar fácil. E as preocupações não têm lugar aí. Eu pensei no poder daquele “brinquedo”. Desejei transformar em caixa vazia nas mãos de crianças, tudo aquilo que tiver o poder de me tirar do sério.

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