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Sou formada em Comunicação Social. Dia desses, uma colega jornalista entrou em contato comigo para sondar meu interesse em conceder entrevista sobre maternidade. Nos falamos um pouco por mensagem e, num segundo momento, em longo telefonema em que revirei a memória dos últimos nove anos para falar sobre minha ‘atuação’ como mãe.

Em jargão da profissão, usamos o termo “vender” para designar a tentativa de fazer com que um profissional da área se interesse pelo assunto que estamos tentando divulgar via meios de comunicação.

Eis que, de repente, me vi no paradoxal papel de “vender” a minha maternagem no intuito de convencer a jornalista de que, sim, eu era mãe o bastante para figurar entre suas entrevistadas. Essa sensação estranha surgiu depois. Ao repassar as perguntas e respostas. Aí, foi como ouvi-la de novo perguntando: o que você acha que faz de diferente como mãe? 

Diante do questionamento revisitado pela lembrança, eu me vi sem palavras. No papel daquelas fontes que a gente, do outro lado, com papel, gravador ou microfone na mão, não quer encontrar. O que eu faço de diferente? Perguntei-me. A resposta que me dei não me daria a condição de uma mulher com superpoderes. Ao contrário, me colocou ao “rés-do-chão”, para usar a expressão de Antônio Cândido de Mello e Souza.

Não gostaria de generalizar (então, deixemos inclusas e implícitas as exceções) mas, penso que mãe é o bicho mais sofredor desse mundo. Então, sou essa pessoa. Engolida pela sofreguidão das subjetividades – desde estar longe imaginando se a filha está usando o casaco ou se passa frio – até estar bem perto, olhos nos olhos, desejando ter um terceiro olho. Capaz de identificar seus pensamentos, fragilidades, dores, medos. E buscar para cada um deles sanativos perenes. 

Todo dia alterno sensações de fracassos e de vitórias. Durmo culpada por alguma falta. Ou acordo feliz por um belo momento compartilhado. Evito fazer coisas arriscadas – para não morrer no meio do processo e deixar a pequena desassistida (mas sei que a tentativa de driblar a morte é inútil). Então, rezo também para que, se isso acontecer, ela ressignifique as dores e encontre um caminho salpicado por pessoas/flores que iluminem sua rota. 

Então, a maternidade ou minha maternagem é esse redemoinho. No meio do qual tento manter minha individualidade. Trabalho. Leio. Escrevo. Busco não confundir-me ou fundir-me a minha filha. Delimitar espaços. Fazer coisas minhas – mas nessa hora, sempre à noite, estou tão cansada que adormeço com os planos. Nele, no redemoinho, tento deixá-la se expressar. Pintar tudo. Sujar tudo. Enquanto desenha ou cozinha. 

Tenho longas conversas na cama, enquanto deito junto para contar histórias que até hoje são obrigatórias. Dois livros e uma de imaginação. Tento não julgar nada ou ninguém. Auxilio para que cuide de seus sentimentos e sensações – para que sejam compreendidos. Aceitos. Ressignificados. Mesmo quando viram lágrimas. Gritos. Portas batidas. Dentro e fora do meu coração. 

Também gosto de estar só. Em silêncio. Sem atender demandas. Sem tem que dizer sim ou não. Escove os dentes. Tome banho. Tire a roupa do chão. Então, tenho uma pequena vida paralela. É quando vou a um café depois de deixá-la na escola. Ou como um brigadeiro escondido (ela encontra o papel no carro) e briga comigo pois não posso/devo comer açúcar. Vou ao samba. Encontro com as minhas amigas e resguardo esses momentos como sagrados. 

E, assim, unindo mil papeis, sou uma mãe. Apenas. Uma mãe/pauta/mulher que não se vende. Porque é tão cara – não tem preço. Porque é tão barata – pechincha encontrada em cada mulher que é mãe. 

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