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Era horário de saída da creche, já entardecendo e o movimento todo da cidade, que não vê a hora de chegar em casa, começava a surgir. Eu, com ele no colo, um pouco pesado demais, mas que traz todo o aconchego de quem ficou o dia longe, ouço no meio do caminho, em um canteiro largo entre duas avenidas, a palavra que ainda se constrói em seu vocabulário: “chão!”, e de novo “chão!”; coloco aquele serumaninho que a poucos meses começou a dar os primeiros passos (mas que agora corre como ninguém), no chão.

E ele continua: “Mãmãe, crec –crec”, e pega uma folha seca entre várias espalhadas pela grama e aponta para que eu possa pisar e fazer o som “crec-crec” de folha seca, e isso vai se repetindo várias vezes, ele pega uma folhinha pra mim e eu uma pra ele, até que ele resolve correr incansavelmente de um lado pro outro pisando nos montes de folhas, até encontrar um balanço.

Todos os dias nós dois passamos por ali a pé na correria do ir e voltar da creche, um lugar tão bonito que vai se compondo pelo gramado, árvores e seus balanços, pezinhos de feijão, e um carrinho de caldo de cana e pastel; sempre achei que parecia um lugar aconchegante, mas nunca pensei que iria parar ali, a não ser que um dia fosse tomar uma garapa. Mas, naquele momento ele me fez parar e sentir realmente aquele lugar, perceber que ali era delicioso, e não por sua comida, e que só o seu olhar muito perspicaz e sensível perceberia de imediato. E, então, ficamos ali por um bom tempo, brincando.

Quando ele nasceu, a vida se transformou, um turbilhão de mudanças, construções e desconstruções do eu e da vida, conflitos internos e externos com o novo e com o que a sociedade nos impõem como mãe; e eu que sempre me esforcei para tentar ver os detalhes do mundo, mal imaginava que quase não via nada, que existia detalhes ainda mais pequenos e imperceptíveis a olhos adultos treinados para não ver em meio a caotização de nossas rotinas.

O olhar para o mundo se transformou, o sentir as coisas do mundo se transformaram: coisas pequenas se agigantam, como diria um amigo. Uma folha seca se transforma no brinquedo mais divertido e esperado, o “crec-crec”; uma vassoura, em qualquer lugar, se transforma no cavalo mais bonito do mundo ou em uma guitarra, e a colher segue o mesmo destino; o céu e os passarinhos são dignos de serem nomeados e observados da manhã até a noite; tudo o que se vê segue o mesmo percurso de nomeação em palavras ou sons; um monte de pedra, é o morro mais alto e divertido do Brasil; a caixa de som no mercado é a parada certa para todas as visitas a esse local; a música, seja na feira, no mercado, na rua, é digna de ser dançada, sem restrições, sem timidez; a cada passo na rua uma nova descoberta compartilhada; a cada pessoa que cruza nossos caminhos um novo sorriso ou um novo “tchau”.

 Ele nos ensina a viver intensamente, a tentar derrubar as restrições que construímos ao longo da vida com os padrões sociais de comportamento, porque sente e nos mostra o mundo verdadeiramente, como quem quer aprender com tudo. Em meio a todas transformações e sentimentos confusos que tem sido a maternidade, eu me permito e ele me ensina a ver e sentir nesses momentos o mundo de forma mais leve, sem suas “complicações” (um pouco de aconchego, em meio as preocupações das configurações políticas, culturais e sociais de mundo). E eu só torço e me esforço para que ele nunca perca todo esse olhar de sentir. 


Autora: Maira Dal Evedove, sou mãe de um menininho de 1 ano e 5 meses, socióloga, antropóloga, e atualmente um pouco professora.

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