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Costumo ouvir rádio. E música. A junção das duas coisas fez minha filha de quase nove anos, Morena, fazer uma relação que considerei bonita e importante. É coisa que a gente percebe se aprimorar a escuta quando lida com os filhos. É coisa que a gente percebe se conseguir driblar o efeito da rotina e se colocar presente de corpo e alma quando conversa com eles.

Ouvindo rádio, passou por nós a propaganda do 180, que incentiva a denúncia de casos de violência contra a mulher. “Seu silêncio pode ser fatal”, é o slong.

Ouvindo música, muitas vezes cantei alto a letra de ‘Maria da Vila Matilde’, interpretada de forma inigualável por Elza Soares e que traz os versos: “Cadê meu celular, eu vou ligar pro um oito zero. Vou entregar teu nome, explicar meu endereço. Aqui você não entra mais, eu digo que não te conheço”.

Na contramão dos sons, gosto de evocar a “Fadinha do Silêncio” quando há muito barulho lá em casa. Peço que se fale baixo para não assustá-la. Lembro que para se fazer ouvir não é preciso muita alteração no tom de voz.

E, como alguém que lida com a palavra de forma dual, fazendo dela aliada e algoz, acreditando quando Drummond diz que “lutar com palavras é a luta mais vã”, também gosto de pregar que “A palavra é de prata. O silêncio é de ouro”. Geralmente, faço isso final do dia, volta para casa, desejo de quietude.

Juntando tudo num cadinho, passando pela via W3Norte, Morena disse: “Mãe, se o silêncio é de ouro, por que a propaganda (e apontou para um ônibus que trazia o cartaz estampado na traseira) diz que o silêncio pode ser fatal?”

Infelizmente, para sua pouca idade, ela já entendeu que existe violência contra a mulher. Que existe violência, inclusive sexual, contra crianças. Sabe também que as pessoas, sobretudo negras, foram escravizadas. Sabe, ainda, existe o racismo, crime sob o qual identifica situações que passo ou que passamos quando estamos (ou por estarmos) juntas.

Eu escutei. Paralisei por um tempo. Vi a grandeza da pergunta. Da conexão. Minha responsabilidade naquela resposta. E tentei discorrer sobre tipos de silêncios. Um era para aquietar. Servia à contemplação, à solitude, ao entendimento de nós mesmos. Outro, podia ser também chamado omissão, quando alguém silenciava só para não ter o trabalho de intervir em algo que pedia uma intervenção, um posicionamento, uma consciência da coisa certa a se fazer.

E ela, atenta, completou: E tem aquele que a gente pode fazer com coisas que acontecem com a gente, mas que devemos contar a alguém para pedir ajuda.

18 de maio é o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Que tenhamos a coragem de ensinar aos nossos filhos sobre silêncios que eles não devem manter. E de tomar a lição para nós. Mulheres. Mães.

Sem mais nada a declarar, encerro esse texto.

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