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“A maternidade é uma aposta no futuro”

Dito isso por Martha Medeiros, me faz pensar que fiz a escolha certa, afinal de contas estamos sempre por conquistar nossa espada, por realizar nossos sonhos, suprir desejos que nunca acabam… até que a cegonha chega e … para tudo… muda tudo… e… no modo “recalculando” a rota… temos pela frente uma jornada incrível de aprendizados. Lições pra toda a vida.

1) Mudança de visão de mundo

Só as mães entendem o que está por trás desta nova visão de mundo. Acontece no momento do “imprinting”, quando enfim conhecemos aquele serzinho que morou dentro da nossa barriga, quando nossos olhos se encontram e… nos derretemos! Muda tudo, a gente quer mais vida, uma explosão de amor acontece e transborda a alma. E eu poderia ficar aqui, escrevendo muito e muito mais sobre este fenômeno mas, o fato é que a maternidade passa a nos conduzir dali pra frente. A magnitude e riqueza desta vivência tanto para mães, quanto para os pais, nos faz querer um mundo melhor, pessoas melhores e temos a chance de recomeçar e buscar por tudo isso com mais amor, mais tolerância e com muito mais humanidade. E sobretudo, compreendemos as nossas mães.

2) Prioridades

Vivi isso na pele, e assim como muitas de nós mães, minhas prioridades mudaram e minhas atitudes também. Fiquei mais forte. No âmbito profissional pude entender a mais a Moda, os seus processos, seus propósitos, a necessidade de mudanças no setor e porque não, pensar mais na sustentabilidade na vida, na moda, no mundo. Moda é comportamento e a maternidade nos faz mudar hábitos e comportamentos. Enfim, a prioridade agora vai além da imagem. O coque desconstruído passa a ser o penteado ideal, nunca usamos tanto o moletom e as sapatilhas se tornam nossas companheiras de caminhada. E daí? Estamos vivendo um momento único que não volta mais. O tempo tem outro sentido agora.

Prioridade passa a ser uma noite de sono, sorrisos espontâneos, amor e mamá de livre demanda, e um banho demorado.

3) Escolhas e necessidade

Podemos abrir mão de grandes sonhos só pra cuidar dos pequenos. Renunciar ou não, escolhas fazem parte do caminho, mudanças de plano, expectativas também.

A questão é que, esgotar o leite, correr feito louca pra deixar o bebê sabe-Deus-onde-e- com-quem e enfrentar o mercado de trabalho que ainda nos trata com certa hostilidade por estarmos passando por isso, vale a pena? É a pergunta que nos fazemos.

Porém, algumas de nós não tem escolha e sim necessidade. E mesmo quem faz escolhas é sempre apontada, de um jeito ou de outro. Se você opta por ficar em casa ou delegar a função, o que realmente importa é a ponderação da sua escolha, planejada e muito conversada em família. O apoio do pai e de familiares nos ajudam a irmos em frente e encarar com mais segurança esta nova fase.

4) Choque de realidade

Raramente há flexibilidade ou acolhimento depois que nos tornamos mães. E como é difícil e dolorido, muitas vezes, enfrentamos a total incompreensão da família, dos colegas de trabalho e do parceiro, que olham a questão como uma simples “adaptação” entre mãe e filho. E sem falar do dito “puerpério”, e no tal “’baby blues” que oscilam hormônios bagunçam nossas emoções.

E na volta ao trabalho há uma absoluta frieza que ignora completamente as necessidades de uma mulher, agora mãe. Há também o julgamento constante sobre esta mulher que agora “se cuida menos”, “não entrou em forma ainda” ou não está esteticamente aceitável para aquele cargo depois da maternidade. Agora, em choque mesmo fica toda uma sociedade quando esta mulher toma para si a responsabilidade de seu papel enquanto mãe e profissional, encara os desafios e faz escolhas por si e sua família, sem culpa, simples assim.

5) Parcerias e apoios

Mães precisam de ajuda. Se permita pedir ajuda quando estiver ansiosa, quando precisar de alguém pra segurar seu bebê enquanto você toma um banho, quando você precisa só de mais um copo de água que, diga-se de passagem amamentar dá uma sede! Ou mesmo quando precisa desabafar, chorar ou simplesmente de um abraço. É tanta mudança por dentro e por fora que é natural que a gente pire, dê umas surtadas, o que não se pode é centralizar tudo em si e dispensar oportunidades de apoio seja no operacional ou emocional.

O pai tem um papel importante aqui, sou prova disso, nas gerações anteriores eles realmente não tinham vez, não porque não queriam mas por uma cultura que os excluía de tarefas tidas como femininas.

Meu pai, por exemplo, não trocou minhas fraldas mas trocou as da neta e achei incrível como um homem na sua idade, vindo de uma cultura machista pôde enfim, exercer de forma atrasada mas válida, um papel que poderia ter desempenhado comigo e meus irmãos. Senti emoção nos olhos dele que mesmo todo atrapalhado com a falta de prática, teve um momento único e porque não libertador. Para meu marido, isso já era um hábito, fez parte da logística não só quando eu não estava por perto mas quando havia esta demanda. Mães

precisam de ajuda mas acredito que o grande tabu é ainda, mães se permitirem essa ajuda.

6) Gestão de tempo

Como na música de Caetano, mas na voz da Maria Gadú, como gosto tanto, a oração ao tempo que diz: “…De modo que o meu espírito ganhe um brilho definido. Tempo, Tempo, Tempo, Tempo e eu espalhe benefícios”. Nosso tempo é isso, um gerador de experiências e o nosso papel nessa vida é justamente estar presente nessas experiências e poder compartilhar as lições que aprendemos.

Aliás, esse termo “estar presente” foi outra coisa que aprendi com a maternidade, o “mindfulness” ou “atenção plena”, que consiste num treinamento em que aprendemos a perceber pensamentos, sensações corporais e emoções no momento que ocorrem, sem reagir de maneira automática ou habitual.

Com isso, a gente aprende a gerir melhor o tempo, fazer escolhas mais conscientes e funcionais, influenciando positivamente na maneira como lidamos com os desafios cotidianos. Basicamente é você estar presente de corpo e mente no momento em que realiza suas atividades do dia a dia, mesmo as mais simples. E acredite, no dias de hoje, com esse bombardeio de informações o tempo todo, é muito difícil se concentrar em uma única coisa de cada vez mas, é possível. Com muito treinamento e uma pequena mudança de hábitos, a gente consegue.

7) Maternidade & Maternagem

Ser mãe rejuvenesce. E é bem legal porque rejuvenesce a alma também. A gente exercita muito mais os músculos da face. Entre risos, choros, caretas e bocejos vamos passando pelos perrengues da maternidade que, usando uma linguagem da moda tem muito viés e pouco glitter. De qualquer forma a maternidade é um processo biológico, é uma condição física, nem sempre uma opção.

Pra mim foi muito planejada e esperada. Amei todo o processo de gravidez, por sorte não tive enjôos nem complicações. Comi muito, muito mesmo, não passei vontade não. 15kg extras que ganhei e que acredite, até hoje estou tentando me livrar de alguns deles mas, fazer o quê? Tudo bem que o parto não foi lá como eu imaginava, até porque a “louca” aqui quis parto natural, zen, sem anestesia, na presença de uma doula e tudo mais. Claro que a real foi outra, né?! E hoje, se me perguntarem sobre, vou dizer que quero novas experiências. Independente disso, optei pela maternagem, uma escolha minha, uma decisão de dedicação por amor. É possível ser mãe sem a maternidade mas não é possível ser mãe sem a maternagem. Gerar, gestar e parir é maternidade.

Cuidar, amar, proteger, doar, ensinar é maternagem. Maternidade é instinto, Maternagem é aprendizado e que aprendizado!. Levo pra mim este legado e que lá na frente ou nem tanto assim eu consiga perceber que deu certo.

8) Medo X Coragem

Será que dou conta? Será que consigo ser mãe, mulher, profissional, dona de casa, motorista, babá, educadora, gestora, cozinheira, etc. etc. etc… e ainda me manter plena, linda sensual e interessante??? São tantos rótulos que o medo é praticamente um item de série mas, contrapartida a coragem é movida pelo medo.

É esse medo de não dar conta de tudo que nos torna mais fortes, mais empreendedoras, mais ousadas. Ficamos mais medrosas, mais choronas, mais sensíveis, muito mais bravas quando o assunto é a prole. Sem falar nesta polarização toda sobre a maternidade versus mulher que vive nos colocando em caixinhas de comportamento assim ou assado.

Isso cansa, sabe? Ser mãe já não é uma tarefa das mais fáceis e ainda com um auditório de palpiteiros de plantão, aff daí fica mais complicado.

Aprendi com minhas experiências e entre minhas leituras sobre moda, comportamento, filosofia e afins, que a coragem é um exercício de enfrentamento e que só ela pode nos fazer evoluir. Coragem pra tomar decisões, fazer escolhas desde as mais simples às mais complexas, seja no âmbito da maternagem ou no trabalho, é ela que nos torna mais visíveis. Ouso acreditar que saímos da maternidade com um bebê, muita coragem e uma malinha de culpa pra equilibrar. Ainda bem que a coragem é bem maior que a culpa e que a culpa nos ajuda a mantermos os pés no chão.

9) Amadurecimento & Comprometimento

Os filhos nos fazem enxergar um potencial na gente que nem a gente mesmo poderia imaginar. Quando nasce um filho nasce também uma empreendedora que tá com todo o gás pra ir em frente, lutar, fazer mais e mais. Não é a toa que há tantos grupos de mães empreendedoras, que deixam cargos importantes para trás porque veem na maternidade uma oportunidade de empreender e flexibilizar seus horários. A verdade é que o mercado de trabalho ainda não percebeu o real potencial de uma mãe, que se torna uma profissional mais atenta, mais proativa e muito, muito mais responsável e comprometida com o trabalho. A busca por reconhecimento para e começa a busca por mais produtividade, mais qualidade de vida, mais resultado.

É realmente uma pena que as empresas se preocupem mais com as nossas possíveis faltas por atestados pediátricos do que com a nossa competência. Esta cultura sexista ainda persiste em tempos em que já provamos nossa dura e extensa jornada de trabalho e capacidade de resiliência. Há de se chegar o dia em que estaremos numa mesa de reunião entre profissionais homens e mulheres em igualdade de cargos e salários e de repente um celular toca…um homem pede licença para atender e logo sai apressado, se desculpando por abandonar a reunião, justamente porque tem que levar seu filho ao médico. E ninguém vai julgá-lo e tão pouco achar estranho esta “atitude doméstica” de apego familiar. Homens e mulheres exercendo literalmente os mesmos papéis.

10) Novos hábitos & Pirações

De qualidade de vida: é aquele momento em que você quer se mexer, voltar às caminhadas, ter hábitos mais saudáveis, passar por um processo de reeducação alimentar, ler mais livros, se dedicar a um esporte ou hobby que deixou para trás, enfim, é hora de se reorganizar para ser uma pessoa melhor, de corpo, mente e alma.

A gente passa a pensar de forma mais consciente nas experiências de consumo. Mas isso, depois do bebê completar 1 ano, porque antes estamos na piração, feito loucas comprando tudo para que não falte nada ao nosso baby. É lista de maternidade, lista de itens de higiene, lista de enxoval, lista disso, lista daquilo, listas, listas… Depois de processar que não precisava de tudo aquilo, começamos a relaxar e a cuidar mais deste exercício de consumo, com muito mais clareza e eu diria até, com mais base em necessidades e não em desejos.

É hora de pensar na vida mesmo, de refletir sobre este divisor de águas que é a maternidade. Os planos que antes não fazíamos, começam a se configurar naturalmente em prol de uma nova família. Vem à tona a busca por autoconhecimento, conversas em família, o tom de voz baixa, as músicas são mais frequentes, a roda de amigos muda, a casa muda e sua vida passa a ser agora uma nova vida.

Termos novos surgirão: homeopatia, Slings, âmbar, funchicória, puerpério, baby blues, entre outros. Aliás, no puerpério tem aquela coisa do: pode isso, não pode aquilo, superstições da quarentena, costumes das antiga, ha, ha ha… me faz lembrar minha mãe que veio da Lapa acompanhar meus primeiros dias de mãe, me ajudou um monte, é verdade e sou muitíssimo grata mas, o cardápio era óteeemooo… todo dia, sopa de “galo véio”, isso mesmo, não bastava ser frango. É pro seu leite vir forte, dizia. Ai, ai… e eu, no auto da minha lucidez fiz tudo direitinho, como mamis mandava.

Nem parei pra pensar o que seria das mães urbanas que não poderiam contar com essas tradições e iguarias. O fato é que a alimentação passa a ter um novo valor na sua geladeira. Claro que, à medida em que a criança vai crescendo vem aquelas pirações de oferecer alimentos mais naturais possíveis, orgânicos se der mas, não dá pra se culpar o tempo todo e às vezes escapa uma papinha industrializada aqui, outra ali, não faz mal.

De vez em quando não tem nada de mais. Erros e acertos são permitidos e porque não aceitáveis. No quesito valores, agora é uma nova jornada. Há um resgate de valores e legados de sua infância, mais do nunca. Estes flashs do passado vem com força total realçando seu modo de pensar a vida e até valorizando aspectos de aprendizado que fizeram a diferença na sua construção humana.

A cultura da sua família, a convivência com irmãos ou não te trouxeram experiências que vão nortear a construção de caráter de um novo ser. É louco isso mas, a experiência de vida que a gente teve gerou valores que irão de certa forma se perpetuar no seu jeito de criar seus filhos. Claro que haverão adaptações ou concessões mas a essência não se perderá e isso é legal;

Pedreira mesmo é educar. Antes de nos tornarmos mães e pais falamos: meu filho será assim ,meu filho não fará isso, meu filho vai andar na linha. Aqui cabe aquele bordão: “Sabe de nada, inocente!” a gente se dá conta disso no primeiro petí no shopping, nas birras e manhas manipuladoras… em que você precisa administrar o descontrole de um serzinho minúsculo e ao mesmo tempo, os olhares de desaprovação ao seu redor em que qualquer atitude que você tome pode virar meme e viralizar e… o seu autocontrole que agora será pautado no exercício da paciência e tolerância. Porém, nunca esqueço um conselho do homeopata da minha pequena: “eduque com amor e firmeza”. Entendo isso quando preciso dizer “não”, quando preciso impor certos limites e fazê-la entender que as frustrações fazem parte da vida. É importante que ela vivencie e aprenda a lidar com seus próprios sentimentos, da raiva à gratidão.

Eu, Elaine Piovezan, uma mulher comum, mãe, profissional me viro nos 30 para dar conta de tantos rótulos a que nós somos submetidas o tempo todo. Simples assim. Dona de minhas culpas, meus medos, erros e pequenos grandes acertos que me fazem querer ser sempre melhor, assim, do que jeito que sou, humanamente imperfeita mas, continuar na luta junto com minha família por mim, pelo meu boy e por ela, minha Helena. E antes que me considerem egoísta por este pequeno parágrafo, penso que se cada um fizer o melhor por si e pelos seus, o planeta vai! De resto, tô nem aí se não consigo atingir padrões de controle de qualidade massificada ou de comportamento, o que importa de verdade é tomar pra mim a responsabilidade de cumprir meus muitos papéis com amor, ética e discernimento.

Dito isso, quero que todas as mães sintam-se abraçadas e acolhidas. Tamo junto nesta louca nave-mãe!!! Para conversas, bate-papo, troca de figurinhas e receitas ou mesmo desabafos, tô aqui!

Autora: Elaine Piovezan, mãe da Helena, Consultora de Moda & Varejo e Professora do Centro Europeu.

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