O mito do amor materno, caso Rhuan e mães cruéis – Por: Jo Melo.

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Gatilho – Violência.

Escrevo esse texto com lágrimas nos olhos. Busco na internet mais detalhes para que ele fique completo, mas a cada site, palavra lida, foto vista, meu coração dói. Não tenho revolta, só dor, dor em imaginar o quanto esse menino sofreu durante 9 anos da sua vida, tudo o que ele teve de passar até chegar no seu último suspiro, de quanto amor ele não recebeu e, talvez, nem soubesse o que significava isso. Não tem explicação para tal caso, e nem deveria e eu não quero saber, uma criança morreu, como muitas morrem todos os dias, e por sua mãe e é sobre elas que eu vou falar.

Ser mãe, o que é ser mãe? parir não é ser mãe, talvez nem amar seja uma característica materna, mas cuidado sim, preocupação, afeto, responsabilidade, compaixão, empatia. Pintamos a maternidade como algo sublime na vida de uma mulher, e não é.

O fato de alguém te colocar no mundo não quer dizer que essa pessoa vá desenvolver um amor por você, que vai cuidar, zelar. Nove meses dentro de uma barriga não faz crescer uma formula mágica do amor. Ele não é construído a cada toque e sorriso como dizem por aí, isso é o que colocam na nossa cabeça desde pequenas quando nos davam bonecas para cuidar, nos adestrando para a maternidade, mas ter essas bonecas, não quer dizer que necessariamente eu as amava, entende? Romantizamos tanto o fato de parir, que esquecemos que muitas vezes, quem pari, não ama.

Ter o sangue de alguém nas nossas veias, não quer dizer que tenhamos um afeto com essa pessoa. Existem casos de mulheres, como as da genitora de Rhuan, que maltratam, matam, dizem aos seus filhos o quanto eles não deveriam ter nascido e eu não to falando de mulheres cansadas em suas rotinas, nem dando algum diagnóstico, como costumam nomear, o tal narcisismo, eu to falando de pessoas cruéis, de mães cruéis, e ter um útero e parir, não muda a sua essência, a sua frieza, a sua crueldade, ele só alimenta ainda mais o ódio que essas pessoas sentem de si mesmas, da sua vida e descontam naqueles que chamam de filhos.

Não falo de você que dá um grito aquilo, acolá, que briga, deixa de castigo, estou falando de mulheres que matam, de mulheres que espancam e deixam olhos roxos, de mulheres que abusam psicologicamente da sua continuação biológica que a sociedade nomeia filhos. Essas pessoas existem e o fato delas serem mães, não as fazem perder a sua natureza cruel e dessa vez, eu não vou defender essas mulheres.

Me dói lembrar todas as vezes que eu apanhei de uma mulher que nem tinha me parido, e me dói mais ainda ter na minha cabeça que eu deveria agradecer a ela por ter me criado.

Me dói lembrar que ela deixava o olho da minha irmã roxo e dizia que se ela contasse pra alguém na igreja, apanharia mais em casa.

Me dói lembrar que ela pegava nós duas pelos cabelos e batia nossa cabeça uma na outra, me dói lembrar que ela deixava nosso corpo marcado de cinta e passava sal no corpo da minha irmã e dizia que era pra ela lembrar do que tinha feito.

Me dói ver amigas contando que suas mães não a consideram, me dói mais ainda ver como a sociedade coloca a mulher nesse papel materno, e mais ainda quando inventam o dia das mães e querem de todas as formas fazer com que essas mulheres sejam vistas como seres imaculados, mas não passam de monstros.

Rhuan teve seu pênis mutilado, ele não ia pra escola, ele era obrigado a manter relações sexuais com sua irmã de criação. Rhuan for cortado e jogado numa churrasqueira, depois, seus restos colocados numa mochila. Rhuan não tinha contato com outras crianças, acredito que ele sequer recebeu um abraço na vida dele, um “eu te amo”. Rhuan vivia uma prisão, com dois monstros que a sociedade insiste em chamar de mãe.

Precisamos de uma vez por todas dismistiicar a maternidade, precisamos olhar nossos filhos como singulares, como pessoas, como seres únicos e não uma extensão nossa, isso não quer dizer que você não tenha de cuidar, isso é para que de uma vez por todas, todo esse amor que pregam sobre mães, acabe.

Eu não sei mais como continuar esse texto, como tentar colocar nele a minha indignação, mas acho que a minha mensagem eu já passei.

Precisamos falar sobre maternidade compulsória, o mito da mãe, a maternidade romantizada. Eu sinto muito por mim, pelo que passei, sinto muito pelo que você passou, sinto muito pelo que centenas que crianças sofrem atualmente, sinto muito por você, Rhuan.

1 COMENTÁRIO

  1. Jo Melo, eu sinto muito, muitíssimo por tudo o que vc passou, por tudo o que o Rhuan e a irmã passaram. Não tento entender isso tudo, porque não vejo como trazer alguma lógica para tudo isso.
    Parabéns pelo seu texto! Visceral. Honesto. Corajoso.
    Eu gostaria de pedir desculpas pelo q vc, sua irmã, essas e muitas crianças
    passaram. Desculpas porque talvez eu pudesse ter feito algo e não o fiz. Nós falhamos como civilização!

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