Fulano, Sicrano e Beltrano julgam-se no direito de comentar sobre o meu corpo como se já não bastasse a autocrítica que me imponho desde que desenvolvi aversão ao espelho, desde que enxergar meu próprio reflexo se tornou uma experiência torturante, enfadonha e melancólica.
Tornei-me stalker do meu próprio perfil no Instagram, observando as fotos com a velocidade de um camaleão. Parece um passado tão longínquo… até o típico sorriso amarelo de orelha a orelha, que costumava me caracterizar, apagou-se.
O que magoa não é a ausência do sorriso, os seios caídos ou o recente mapa de estrias que se desenhou em meu corpo.
O que dói são as comparações entre o que fui e o que sou — o escárnio, muitas vezes vindo de outras mulheres, usado para destacar a suposta ausência de beleza pós-parto.
Compararam-me à Regina, que mal saiu do parto já exibia a barriga sarada, os seios firmes e as pernas torneadas. A doce imagem perfeita do autocuidado pós-maternidade, que em nada se assemelha ao meu desleixo.
Existe uma indústria de mães perfeitas?
Se sim, falhei miseravelmente.
Olho novamente para mim mesma e faço uma autoavaliação: fisicamente, um caco; mentalmente, um caos.
Penso constantemente no que fazer para voltar a gostar — ainda que minimamente — da minha aparência, para reconquistar minha autoestima e autoconfiança.
É nítido: sou o completo oposto do que apregoam como o corpo padrão do século XXI. Mamãe teve três filhos, e os 45 anos só serviram para realçar sua beleza e glamour.
Eu, pelo contrário… meu olhar se perde além do horizonte por tempo suficiente para ser considerado uma eternidade. Meu busto, agora rechonchudo, outrora foi uma silhueta curvilínea, digna de regozijo.
Talvez eu devesse concordar com quem disse que joguei minha juventude fora. Paguei o preço justo pela maternidade? Ou saiu um pouquinho mais caro para mim?
Talvez eu não tenha sabido barganhar com a gravidez… talvez ela tenha suas preferidas. Talvez — e só talvez — seja melhor parar de viver de lembranças passadas e aceitar meu físico atual.
Ergo a cabeça em concordância com meu próprio raciocínio, que, quem sabe, até tenha lá sua lógica.
Torturei-me durante todo o puerpério. Torturei-me depois dele também. Não faz o menor sentido continuar a bater insistentemente na mesma tecla. Resta-me apenas admitir… sim, admitir!
Admitir que existem corpos diferentes, que se adaptam às mudanças da gestação de formas diferentes… e está tudo bem!
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Autora: Carina Mulieca / @carinadaconceicaomulieca





