Coluna – Quando a filha assume grande poder e grande responsabilidade

homem aranha julia valle

Não me considero uma mãe controladora, mas é fato que venho sendo a responsável pelas principais decisões relacionadas à minha filha desde seu nascimento. Sempre defini seu colégio, as atividades extracurriculares, como seria seu deslocamento, e tudo o mais que permeia nossa rotina.

Não costuma ser possível compartilhar a tomada de decisões com a rede de apoio. Afinal, a responsabilidade pelas escolhas cabe aos responsáveis pela(o) menor. Sendo assim, arcar sozinha com esse encargo costuma ser um dos motivos de sobrecarga de mães solo. 

Mesmo não sendo possível compartilhar essa função, com o passar do tempo passei a ouvir e considerar cada vez mais as opiniões da principal parte interessada: minha própria filha. Ainda assim, o posicionamento final seguia sendo meu. Efetivamente, não somente sou a responsável financeira por ela, mas legalmente sua autonomia é bastante restrita até atingir a maioridade.

Resumindo e parafraseando o Homem-Aranha: com grande poder, vem grande responsabilidade. Logo, até que minha filha se tornasse capaz de assumir a grande responsabilidade pela tomada das principais decisões, esse grande poder permanecia comigo.

Até que ela concluiu o ensino médio e esse cenário mudou. A transição do colégio para uma universidade (tomara!) não tem nenhuma semelhança com os processos anteriores em que fiz suas matrículas para os segmentos anteriores. Dessa vez, não tenho nenhum poder de decisão. Tudo depende, em primeiro lugar, das escolhas da minha filha sobre seu futuro: onde e o que ela quer estudar? Depende também do seu resultado nas provas de ENEM e de vestibulares específicos, o que também é influenciado pelas prioridades dela.  Enfim, os papéis se inverteram. O máximo que posso fazer é esperar que ela me escute e considere minhas opiniões ao fazer suas escolhas.

Provavelmente, essa é a primeira das muitas vezes em que não serei mais a responsável pela tomada de decisões que envolvem minha filha. Tentando imaginar o que vem pela frente, vislumbro somente situações em que ela assume esse papel. No máximo, me consultando ou pedindo alguma ajuda. Por um lado, me percebo desorientada nesse novo contexto em que não sou mais tão essencial ou necessária. Por outro lado, concluo que estou caminhando na direção que sempre sonhei: me tornar uma mãe desnecessária. Isto é, estou formando uma jovem capaz de construir sua independência.

Voltando à frase do Homem-Aranha, me parece que chegou o momento para minha filha assumir o grande poder e respectiva grande responsabilidade pelas suas escolhas. Espero que ela me inclua na teia que está construindo a partir de suas mãos.

Os artigos publicados pelas colunistas são de responsabilidade exclusiva das autoras e não representam necessariamente as ideias ou opiniões do Mães que Escrevem

Autor

  • Marcia do Valle

    Márcia do Valle é mãe da Julia e da Clara, madrasta da Maria, feminista e carioca. Além de engenheira e mestra em administração de empresas, também  é autora dos livros "180 Graus" (Editora Marco Zero) e "Onde guardo as bobagens que eu contava só para você?" (Editora Adelante). Atualmente divulga seus textos no instagram @marciadovalleescritora.

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