Coluna – Matrescência: também existe um nascimento que acontece na mãe

A mother and son share a tender moment inside a church, emphasizing family bond.

Quando o filho nasce, quase tudo ao redor passa a girar em torno do bebê. O enxoval, o quarto, as visitas, as perguntas. Como ele está dormindo. Se já mama bem. Quanto ganhou de peso. A mãe responde, organiza, resolve. E, no meio disso, costuma sumir de vista, inclusive da própria.

O que pouca gente nomeia é que, junto com o bebê, nasce também uma mãe. É um processo concreto de reorganização da identidade, do corpo, das relações e da forma como a mãe se vê no mundo.

Esse processo tem nome: matrescência.

O termo vem da antropologia, cunhado por Dana Raphael nos anos 1970, e descreve a transição para a maternidade como uma fase de desenvolvimento, comparável à adolescência. Não no sentido de imaturidade, mas de transformação profunda. Na adolescência, o corpo muda, os hormônios mudam, o lugar social muda, a identidade se reorganiza, e ninguém espera que isso aconteça sem confusão. Com a maternidade acontece algo parecido. A diferença é que, da mãe, costuma-se esperar que ela já chegue pronta.

A comparação ajuda porque tira o peso da culpa. Sentir-se desorganizada, dividida, em dúvida sobre quem se é não significa que algo deu errado. Significa que uma transição está em curso. O incômodo, muitas vezes, não é sinal de problema. É sinal de processo.

O que torna a matrescência difícil não é só a intensidade da mudança. É o silêncio em volta dela. Fala-se muito sobre o desenvolvimento do bebê e quase nada sobre o que se reorganiza na maternidade. Ela aprende a interpretar o choro, a regular o sono do filho, a ler cada sinal do corpo dele. E, ao mesmo tempo, vai perdendo contato com os próprios sinais. Não sabe mais quando está com fome, quando está no limite, quando precisa parar.

Quando tudo gira em torno do bebê, é fácil a ação de reduzir a mãe a uma função. Deixa de ser chamada pelo nome e vira “a mãe do João”. Os assuntos encolhem. O corpo vira instrumento de cuidado. Os desejos próprios viram coisa de “depois”. E “depois” vai ficando cada vez mais longe.

É aqui que costumo insistir: amar o filho não exige deixar de existir como pessoa.

Parece óbvio, mas é exatamente o que a romantização da maternidade desmente o tempo todo. A imagem da mãe que se anula com prazer, que não sente falta de nada, que encontra na entrega total a realização completa, transforma qualquer sinal de individualidade em egoísmo. Esta pessoa que ainda quer trabalhar, pensar, sair, ter um espaço só dela, começa a se perguntar se está sendo boa mãe.

O problema não é querer continuar existindo. O problema é o discurso que ensina que maternidade e identidade não cabem no mesmo lugar.

A matrescência não pede que ocorra uma escolha entre o filho e a mãe. Ela mostra que essa escolha é falsa. O vínculo com o bebê não depende do apagamento da mãe. Depende, inclusive, do contrário. Uma mulher que consegue se sustentar, que não está completamente esvaziada, tem mais condições de estar presente de verdade.

Talvez a pergunta mais útil, no meio disso tudo, não seja “estou dando conta?”. Seja outra.

Que parte de mim estou preservando quando tudo gira em torno do bebê?

A maternidade transforma. Sempre transforma. Mas transformar não é o mesmo que apagar.

É possível ser transformada pela maternidade sem ser apagada por ela.

Autor

  • Paula Alves

    Paula Alves é psicóloga de gestantes - CRP04/31469, mãe da Maria Cecília e é especialista em Psicologia Perinatal e da Parentalidade, com mais de 15 anos de experiência. Atua no acompanhamento psicológico de gestantes e mães no pós-parto, além de ser docente em um curso de formação de doulas. Acredita que maternar não deve ser sinônimo de solidão e que falar sobre saúde mental materna é fundamental. No Instagram, compartilha reflexões e conteúdos sobre o tema: [@paula.psiperinatal].

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