Maternidade como destino? Obra “Assistida” acolhe a espera e a incerteza da jornada de uma “tentante”

A obra “Assistida” se posiciona na contramão das narrativas tradicionais: em vez de somente celebrar a chegada, o livro acolhe a complexidade da espera; em vez de prometer um final feliz garantido, assume o risco real da incerteza.

“Melhor seria publicar se, afinal, eu conseguisse ser mãe. Talvez poucos comprassem um livro sem a promessa de final feliz”, escreve a autora logo nas primeiras páginas.

A frase antecipa a aposta corajosa que sustenta o projeto: um diário íntimo produzido ao longo de dois anos marcados por tentativas frustradas de engravidar, sem saber, até o fim da escrita, se o desfecho seria positivo ou vazio.

“Por cinco anos, fui tentante. Ao me descobrir infértil, fui silenciada por uma dor profunda. Decidi escrever por ser um processo terapêutico para mim, já que eu não conseguia falar sobre o assunto com familiares e amigos. O livro foi gestado durante quase dois anos, enquanto eu vivia as angústias de tentar engravidar e não conseguir”, relata Sabrina.

A narrativa acompanha detalhadamente mais de um ano de exames, uma cirurgia por videolaparoscopia, punções foliculares e o intenso protocolo hormonal da fertilização in vitro (FIV).

Se na infância a expressão “bebê de proveta” habitava o imaginário como uma espécie de “viagem espacial” ou “clonagem”, na vida adulta o cenário se revelou cru: um leito hospitalar, luzes brancas e bips de aparelhos. “Fecundar, a princípio, não passaria pelo séptico. Faltava algo mais parecido com suor, troca de líquidos, gemidos e entrega”, pontua a autora.

Mesmo sendo pesquisadora, professora e Doutora em Literatura com uma trajetória intelectual ancorada na crítica a sistemas civilizatórios sexistas, Sabrina percebeu o abismo entre o repertório teórico e a vivência na pele.

No capítulo intitulado “Contradição”, um dos mais emblemáticos da obra, ela ensaia dizer ao marido que ele poderia abrir mão do relacionamento, já que seu “útero seco” não lhe daria um filho.

“E me senti em falta. E me senti capenga. […] Diante do meu repertório, o parágrafo anterior é um despropósito. Contudo, aquele sentimento pulsava em mim.”

Essa honestidade brutal revela como as expectativas sociais sobre o corpo da mulher operam de forma profunda, mesmo em mentes amplamente críticas. Inicialmente, a escolha da autora foi pelo sigilo. Porém, com o passar dos meses, a montanha-russa dos hormônios e as transformações físicas tornaram impossível sustentar a experiência isolada. A escrita tornou-se, então, o espaço vital onde os paradoxos puderam existir sem a exigência de uma resolução imediata.

“Assistida” não se propõe a ser um manual de sucesso reprodutivo, mas o relato real de quem aprendeu a conviver com estatísticas adversas (“Eu tinha no máximo 30% de chance de ter um bebê no colo e muita persistência”). O livro também registra a descoberta tardia de duas condições clínicas severas:

  • Endometriose: Uma doença que afeta milhões de mulheres, mas que permanece pouco estudada e frequentemente ignorada pela comunidade médica. No caso de Sabrina, após décadas de consultas ginecológicas de rotina, a linha de investigação jamais havia sido aberta.
  • Trombofilia: Uma condição hereditária que emergiu a partir da dor de sua irmã, que sofreu três abortos espontâneos. “Da dor da minha irmã, surgiu uma investigação em mim.”

A crítica social e estrutural do livro surge encarnada na dor física direta: nos “fogachos” provocados por medicações que simulam a menopausa e nos hematomas severos causados pelas injeções diárias de enoxaparina sódica — marcas que, ironicamente, levantavam “suspeitas de violência doméstica”.

No capítulo “Sobre as frases das ‘tias e tios do pavê”” a autora joga luz sobre os clichês e pitacos que ouviu ao longo do processo: “Quando esquece, vem”, “É só relaxar que acontece”, “Toma maca peruana”.

A provocação de Sabrina ao leitor é direta: “Alguns conselhos guardam um implícito: se eu não consegui engravidar é porque fiz algo de errado. Será? Por que quem aconselha sobre fé acha que eu não a tenho? Como desejar algo sem ansiar por ele? É possível um desejo sem espera?”

A relevância de “Assistida” ultrapassa o relato estritamente individual. O prefácio, assinado pela poeta e professora Juliana C. Alvernaz, define a obra como uma “escrita ensaio-performance” de caráter profundamente coletivo: “’Assistida’ constrói um eu-coletivo do corpo-vida de muitas mulheres invisibilizadas pelo Estado”.

A quarta capa do volume traz o endosso técnico e humano da Dra. Débora Faria, médica especialista em Reprodução Humana, chancelando o diálogo necessário entre a literatura e a medicina.

Ficha Técnica

  • Título: Assistida
  • Autora: Sabrina Alvernaz
  • Editora: Ed. da Autora, 2025
  • Páginas: 168 | ISBN: 978-65-01-62020-6
  • Gênero: Diário / Ensaio literário / Autobiografia
  • Preço: R$ 59,90 (impresso) | R$ 39,90 (e-book)
  • Onde encontrar: www.assistida.com.br e na Amazon

Sobre a autora: Sabrina Alvernaz é Doutora em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC, 2023), com tese indicada ao Prêmio CAPES de Tese 2024. Graduada em Letras pela UERJ (2008) e Mestre em Estudos da Linguagem pela PUC-Rio (2011), acumula mais de dez anos de experiência como pesquisadora e docente em instituições federais. É autora do livro “Sangue, cauim e cerveja” (2015) e atuou como roteirista e diretora de curtas-metragens, incluindo “Agahü: o sal do Xingu” (2020). Nascida em Rio Bonito (RJ), reside atualmente em Laguna (SC).

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