A onda anti-vacinas e a perda da noção de coletividade

0

Tempo de leitura: 3 minuto(s)

Vivemos na era da pós-verdade e do individualismo, ninguém discute. O que não se debate são as consequências disso. É normal relativizar o coletivo em prol de um “eu” original e diferente dos demais. Único. É o umbigocentrismo™. O problema é quando essa noção atinge domínio público e acaba por fazer mal aos demais. E existem coisas que funcionam apenas com um esforço coletivo. A vacinação é uma delas.

Dentro da chamada “bolha materna” ultimamente andou surgindo muito a questão de ser contra a vacinação dos filhos. Isso não é tão surpreendente. Fiquei apavorada quando vi tópicos sobre isso fora da bolha materna. Pessoas imunizadas sendo contra a imunização de crianças. Em nome de uma pseudo-verdade sua.

Um sentimento anti-vacinação

E no meio dos argumentos eu senti que a história de sentimentos, acolhimento, respeito às decisões do outrém… Estava indo longe demais.

Porque colocava o filho de outrém em risco.

Existe uma coisa chamada efeito manada. Ele funciona da seguinte forma: quanto mais pessoas se imunizarem, tomarem suas vacinas, mais pessoas estarão seguras, incluso aquelas que realmente não podem tomar a vacina para se imunizarem.

Ou seja, protegendo seu filho, você estará protegendo o filho de outra pessoa. É o coletivo funcionando para o bem de todos.

O amor resumido a um gesto é a vacinação.

A questão de vacinar ou não um filho não pode ser resumida a um sentimento irracional de medo que as vacinas não funcionem. Quando se come fora, se dá um voto de confiança que a comida que se ingere foi feita de forma que não se morra de salmonela. A vacinação envolve confiança que quem a fez , sabe o que está fazendo. Por mais difícil que isso possa soar, é preciso confiar que elas passam por um rigoroso sistema de qualidade, que as pessoas que as fazem são formadas e estudaram para estar lá. Algo mil vezes além do que se pede de quem cozinhou no restaurante local. Comida estragada poder matar. E comer é o ato mais básico do ser humano, é o que o mantém vivo.

Também aqui não cabe um sentimento de culpa por conta da questão da exploração animal. Mesmo que o animal seja outro ser vivo… Ele não é a mulher grávida que não pode se vacinar por conta da gravidez, ele não é a criança que não pode ser vacinada por conta de uma doença ou alergia a um componente da vacina. Eles não são outras pessoas que precisam igualmente de proteção e cuidados. Não vacinar por pena dos animais pode significar condenar uma futura criança a uma vida de deficiência ou à morte.

O mito do autismo

Há alguns anos atrás, um pesquisador médico que afirmou que vacinas causam autismo perdeu sua licença. Ele fez um estudo tendencioso cujas conclusões levavam ao fato de que vacinas causavam autismo. Para muitos pais, esses estudos se tornaram um motivo forte para não vacinar seus filhos.

A pessoa nasce autista. Assim como nasce gay. Assim como nasce TDAH. Assim como nasce preta. Assim como nasce amarela. Assim como nasce branca papel. Não é uma doença, nada causa isso. Por não ser uma doença, não tem cura. É ofensivo dizer que o autismo pode ser evitado se os pais decidirem não imunizarem seus filhos. É praticamente o mesmo que dizer: prefiro meu filho morto a autista. E isso é além de capacitista é um pensamento cruel. Como se uma vida autista não valesse a pena ser vivida. Hitler pensava assim também. Ainda bem que existiu o Hans Asperger para vender para ele o super homem. Infelizmente mesmo assim, muitas crianças autistas morreram. Mesmo os autistas não verbais possuem sentimentos e uma capacidade profunda de entender/sentir os outros humanos.

O retorno dos que nunca foram de verdade

Enquanto os nerds se preocupam com uma possível epidemia zumbi hipotética..

A onda anti-vacinação está trazendo de volta outras doenças mais reais e perigosas na Europa e no resto do mundo. Várias causam morte.

Tudo em nome de um “sentimento”, algo dentro do peito que diz que é melhor não vacinar, apesar de evidências do contrário. Por mais que as mães saibam quem são seus filhos, essa decisão não envolve apenas o próprio filho. Envolve o filho do próximo.

Catapora mataPolio se não mata deixa deficiênciaA polio foi erradica no Brasil nos anos 90.

Fato interessante: o criador da vacina para pólio, abriu mão da patente da doença com o sonho de erradicá-la do planeta.

O papel do SUS

Sendo bem sincera, até pouco tempo atrás, eu não tinha nem ideia que existiam vacinas pagas. Não imaginava. Tomava o direito de vacinação como garantido. Como a coisa mais natural do mundo.

Não é.

A vacinação é um direito. Sai mais barato vacinar que lidar com as consequências da falta de vacinas depois. Em prol do efeito manada, a vacinação é coberta pelo sus. Para as vacinas funcionarem, tem de ser aplicadas a todos, sem uma barreira monetária sobre elas.

Por isso a pólio foi erradicada no Brasil ainda nos anos 90. Sendo o último caso registrado em 1989.

Isso é um pulmão mecânico que se usava para aqueles que precisavam após a pólio.

Nem todo poder público pensa assim. A verdade é que o projeto de lei que congelava os gastos em saúde , educação passou. E se um serviço não é usado pelo público, ele deixa de ser considerado importante para o poder público.

Que adianta gastar uma fortuna em vacinação se nem todos se vacinam?

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui