Copa do Mundo e o coração das mães desses meninos, já imaginaram? Deve ser um orgulho que não cabe no peito. A gente sabe de onde vem a grande maioria deles. São meninos pretos e periféricos de tantos cantos desse país que querem um destino diferente; que não aceitam estar à margem; que lutam contra um sistema e um pacto que querem, exatamente, que fiquem ali, reféns do próprio destino.
E agora podem se reconhecer naqueles vestidos com a tão sonhada amarelinha. E, junto deles, estão elas, as mães. A sociedade insiste em chamá-las de guerreiras. São meninas que cresceram obrigadas a lutar, que anseiam pelo futuro digno e promissor dos filhos, que orientam, aconselham e abdicam do seu sucesso pelo sucesso da cria.
Que esses meninos não carreguem nas costas apenas a responsabilidade de dar alegria à nação, mas que levem consigo, no coração, o amor da mãe, que fez o que fez por amor — um amor inexplicável, inesgotável e imutável.
Não é só futebol, na verdade, são muitas camadas. É a hora em que nos esquecemos, por instantes, dos perrengues da maternidade. É quando nos unimos aos vizinhos, que muitas vezes são nossa rede de apoio, quando a família e os amigos não podem (ou não querem) estar. É o resgate de emoções vividas na infância, brotando e trazendo alegria.
Na verdade, futebol não é só futebol. A maioria não entende uma regra sequer. A gente só quer… a gente só quer gritar gol, como quem se liberta.
Se pararmos para pensar, maternar é um verdadeiro clássico. A diferença está nos adversários. Precisamos driblar desconfianças quando somos mães de primeira viagem, mas viramos artilheiras ao marcarmos golaços na vida dos nossos pequenos.
Somos verdadeiros paredões, assim como os melhores goleiros. Defendemos nossos filhos e não permitimos que o mal os atinja. Somos ótimas no meio de campo: fazemos as intervenções com inteligência e mansidão. Assim, conseguimos gerir a partida, mesmo quando a escalação da equipe não é favorável.
Além de tudo isso, precisamos encontrar o equilíbrio entre ditar regras e cultivar a cumplicidade, assim como os grandes técnicos fazem com seus times.
Há mães que são julgadas pela quantidade de filhos. “Nossa, tá querendo montar um time de futebol?”. Com certeza não. A torcida nem sempre joga junto. E, como um grande time, temos que provar nosso valor.
A guerreira quer apenas descansar e se orgulhar. O Brasil é o país do futebol, de Pelé, nosso maior, que carrega em sua origem o colo de uma mãe preta, mas também é o país que exclui e apaga muitos outros filhos desse mesmo chão.
Vini, Rayan, Luiz Henrique, Bremer, Endrick… que nossos pretinhos brilhem e que honrem suas mãezinhas.
Vocês são exemplos para tantas crianças, meninos e meninas, que podem e devem encontrar no esporte, assim como na arte e na literatura, uma saída para alavancar carreiras, profissões e vidas.
A taça que queremos é aquela que nos lembra que, quando pensarmos em desistir, vamos recordar toda a doação, os esforços e a dedicação de mães pretas pelos sonhos de seus filhos — sonhos que são, também, a extensão dos sonhos delas.





