“Quando nasce uma criança, nasce uma mãe culpada”. Se você jogar essa frase no Google aparecem vários resultados, com alguma variação sintática, de reflexões sobre a culpa materna. Mas será que essa culpa materna fica só com as mães?
All her fault, “Tudo culpa dela” em tradução livre para o português, é uma série bastante recente, de 2025 (contém spoiler apenas do primeiro episódio), que retrata uma tragédia familiar intensa enquanto explora a relação de culpa das mães com os filhos mas, também, com a sociedade.
A história começa com Marissa indo buscar seu filho no endereço que havia recebido por mensagem, onde ele estaria brincando com um amiguinho da escola, para descobrir que a mensagem era falsa e que Milo, de cinco anos, havia sido sequestrado na verdade. A sequestradora, babá do amigo com quem, supostamente, Milo estaria brincando naquela tarde, envia uma mensagem se fazendo passar pela patroa e, assim, engana Marissa dizendo que os meninos brincariam juntos naquele dia e que a mãe deveria buscá-lo no fim da tarde naquele local.
Na “casa errada”, ela conversa com a moradora e, aos poucos, vai se dando conta do que acabava de acontecer. A cena, muito bem elaborada, vai levando a personagem e o telespectador numa crescente tensão enquanto os sinais apontam para o óbvio. Óbvio? Nessa sequência inicial já vemos surgir, para desespero da mãe, pela primeira vez a pergunta: “você já havia estado na casa dessa outra mãe antes”? E lá está ela, a expressão de culpa que acompanha a personagem durante a série, estampada na cara de Marissa. E qualquer mãe que assista a séria nesse momento, se identifica imediatamente com tantos e tantos momentos em que esteve exatamente na mesma situação. É por isso que Jeeny, a mãe do outro garoto, Jacob, de maneira quase automática cria empatia com Marissa e, de fato, se aproxima e oferece amizade e apoio totais, mesmo conhecendo-a a pouco tempo.

Não, Marissa nunca esteve na casa de Jeeny antes. Assim como ela não tinha o número de telefone de Jeeny salvo e, por isso, não desconfiou da mensagem. Não, ela também não conferiu o número que enviou a mensagem com o contato de Jenny registrado no grupo de mães e não, também não ligou para o número tentando se certificar de que falava realmente com a mãe de Jacob. Em menos de trinta minutos da série, todas essas falhas imperdoáveis vão se acumulando em cima dela à medida que ela mesma ou outras personagens vão fazendo essas perguntas.
Enquanto Marissa se culpa mais e mais a cada minuto por não ter tomado nenhuma dessas precauções, Jeeny, imediatamente, ao saber do que ocorreu, se culpa por ter contratado a babá responsável pela abdução. Não foi o filho de Jeeny a ser levado, ainda que a sequestradora trabalhasse em sua casa e, portanto, tenha tido centenas de chances de levar Jacob, mas a culpa materna está lá mesmo assim. Jeeny, nesse momento, se sente culpada por ter “aberto as portas de casa” para uma criminosa, ainda que ela tenha tomado todas as providências possíveis para averiguar o passado de Cassie, a babá (sequestradora). E ela também se sente culpada por ter deixado o próprio filho exposto a esse risco. Ou seja, rapidamente a série também dá conta de mostrar as culpas que as mães carregam até mesmo por coisas que não aconteceram. A maternidade vem recheada de culpa do que as mães fazem, do que não fazem, do que acontece e do que poderia ter acontecido. Que mãe nunca se pegou culpando-se por qualquer atitude que não teve consequência, mas poderia ter tido?
Mas, além disso, Jenny também se sente culpada nesse contexto enquanto mulher. Enquanto ente social Mulher. Assim como a babá de Milo, Ana, que se culpa por não ter percebido o comportamento suspeito de Cassie. Ao se lembrar de algumas situações ocorridas corriqueiramente quando elas iam juntas levar os garotos para tomar milkshake, por exemplo, ela também carrega essa culpa que, claro, está vinculada a sua condição profissional, de babá, mas também parece estar insinuando uma suposta responsabilidade inerente a qualquer mulher. Afinal, o tal “instinto materno” não alertou essa jovem babá de que algo não estava correto na aproximação da outra?
Essa leitura é reforçada se olharmos para a cena em que o investigador, Michael Peña, vai conversar com Jeeny e o marido na tentativa de conhecer melhor o perfil de Carrie e buscar alguma pista de seu paradeiro. Peña pergunta a Jeeny se ela percebeu algo suspeito no comportamento da babá em sua casa e quando ela checou as referências de empregos anteriores, já que a essa altura já se sabe que essas referências eram falsas. Quando ela responde que não, que o comportamento de Carrie era perfeitamente normal e os supostos patrões anteriores falavam bem dela e pareceram confiáveis, o marido imediatamente fala: “Eu não acredito que você não notou nada de suspeito”. Neste momento o desconforto dela fica ainda maior com a situação. Fica claro que a culpa que sente fica muito mais pesada. Por sua vez, o investigador dirige-se ao marido e replica sua fala perguntando: “Você percebeu alguma coisa, Sr. Kaminski? Quando falou com as referências da babá?” Ao que o marido responde, confortavelmente, dizendo que não falou com ninguém pois “isso é mais o departamento da Jeeny”. Resta a pergunta: o quanto alguém que não assume as responsabilidades de cuidado pode cometer algum erro e, portanto, se sentir culpado quando algo de ruim acontece?
Embora eu esteja falando de uma ficção, tenho certeza que toda mãe ou qualquer mulher que cuida de alguém no seu dia a dia consegue relacionar essa cena a fatos reais. A criança desnutrida por só comer macarrão, e muito pouco, a criança obesa por comer de tudo, a toda hora, o braço quebrado por ser muito ativo, a constituição física fraca por não fazer nenhuma atividade física, a desidratação da senhora ou senhor de idade porque esquecem de beber água, o excesso de líquido etílico consumido pelo outro idoso que nunca se livrou do alcoolismo… quem leva a culpa é quem cuida. E em nossa sociedade, de maneira geral, quem cuida são as mulheres. Marissa, Jeeny, Ana e Carrie representam as centenas de milhares de mulheres, por todo o mundo, que são as únicas responsáveis pelo cuidado de alguém. E é, sempre, tudo culpa delas. Quando descobrimos os reais motivos do sequestro (sem spoiler aqui), também descobrimos a culpa feminina de Carrie, assim como podemos observar mais e mais situações de total auto isenção de responsabilidade por parte dos homens. E já posso prever que muitos homens simplesmente irão se recusar a assistir essa série sob a alegação de ser “coisa de mulher”. Provando, assim, meu ponto de vista.
Serviço:
Onde assistir: Prime Vídeo
Emissora original: Peacock
Roteiro: Phoebe Eclair-Powell e Kam Odedra
Direção: Minkie Spiro e Kate Dennis
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