A noite em que fui de Nina Simone a Sófocles, Lígia Civile – @licivile
Aconteceu na semana passada, enquanto minha contagem do tempo se resumia — e tem se resumido — a semanas e dias. Da primeira vez em que fiquei grávida minha gestação foi até treze semanas. Na sexta semana, vi o embrião implantado pela primeira vez. Sem batimentos cardíacos, o que poderia ser normal para aquele tamanho de três vírgula cinco milímetros. No segundo ultrassom, duas semanas após, nada de batimentos, e o embrião estava parado em seu desenvolvimento aos quatro milímetros. Depois vivi uma espera trucidante até a décima terceira semana, quando finalizaram minha gestação por meio de uma aspiração manual intrauterina.
Dessa vez, na sexta semana, ouvi os cento e dezoito batimentos cardíacos por minuto num embrião muito bem implantado de cinco vírgula quatro milímetros. Na nona semana, cento e sessenta e quatro. Cento e cinquenta e dois na semana passada. É incrível isso do coração se desenvolver antes do cérebro. Pelo menos acho que é assim que a vida começa. No último exame descobri que, além de coração, algo como um cérebro, braços e pernas, meu bebê também possui fêmur. E bexiga!
Na noite anterior ao apavorante ultrassom morfológico, fui a um show de tributo à Nina Simone. Sempre que escuto suas músicas sou atravessada por uma infinidade de sentimentos, como se ouvisse um rádio cuja frequência traz diversas oscilações. Ambi. Valentes. E naquela noite não foi diferente. Quando a cantora entoou os primeiros versos de Feeling Good, gelei. Seria mesmo um “novo amanhecer, um novo dia, uma nova vida para mim”? Voltei para casa com o gosto de um drink não-alcoólico impregnado na boca, tomei o ácido fólico e o restante da suplementação recomendada pela obstetra e dormi.
Tive um sonho que de tempos em tempos me aparece. Como fiz teatro por um bom tempo, não é tão incomum sonhar que estou para apresentar uma peça e alguma coisa está fora do lugar. O figurino não deveria ser aquele, as falas não estão decoradas, a plateia está meio esvaziada. A primeira peça que fiz na escola, aos catorze anos de idade, foi Édipo Rei, de Sófocles. Fazia parte do coro e numa determinada cena também era o arauto portador de uma bombástica notícia: a de que a rainha Jocasta havia se enforcado após descobrir que se casara com o próprio filho, e Édipo, ao encontrar o corpo da mãe, pegara os alfinetes de suas vestes e os penetrara nos próprios olhos. Cegando-se. Ensaiei aquele monólogo tantas vezes que lembro de trechos até hoje. Algo como: “O horror do quadro, a vós que não o vistes, será poupado. Mas eu, que o vi, dele não posso me esquecer…” .
E eis que no sonho estou no palco prestes a apresentar justamente aquele monólogo. Percebo que minha túnica é diferente do figurino original, que usei lá em 2001, e de que não me lembro do monólogo. Enquanto improviso movimentos corporais, sou inclusive surpreendida por minha habilidade em executar alguns deles, como ficar de cócoras e levantar rapidamente sem qualquer desequilíbrio. Começo a tal da fala do horror e vou improvisando, pois não tenho a menor ideia do texto que deveria falar. Há medo, vergonha, sensação de estar errática o tempo todo. Poderia estar me expondo assim? A plateia vai notar? Acordo. Não sei se em casa ou se na maca do ultrassom, com as falas do médico ou o arauto, dando as boas notícias e apontando estrutura por estrutura de um corpinho na tela, fazendo com que eu experimente uma paz que não sentia em anos. Lembro que uma das últimas músicas do show foi uma versão de Here Comes the Sun. Seguro meu companheiro em uma das mãos, sou segurada pela Nina na outra. A tragédia não se repetirá.





