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No dia 19 de dezembro de 2015, depois de 6 testes de farmácia – todos positivos – descobri que estava grávida. Eu e meu companheiro já morávamos juntos há um ano, então para nossas famílias não foi motivo de espanto, pelo contrário, todos celebraram muito. Fato é que antes de contarmos para todos pedi para o meu companheiro guardar a informação, eu precisava pensar, decidir o que fazer da minha vida (meu corpo, minhas regras, certo?). As coisas andavam muito bem e eu sabia que um bebê mudaria essa ordem. E eu, como mulher feminista, independente, no auge na plenitude dessa independência, tinha um medo lascado de perder isso duma hora pra outra.

Além disso, eu e o pai ainda estávamos na faculdade e como conseguiríamos conciliar as responsabilidade todas? Fui viajar, pensar nisso tudo de frente pro mar me ajudaria com toda a certeza. Pensar? Qual o quê. Eu só conseguia dormir. O tempo todo. De manhã, de tarde e de noite. Coisa que uma grávida mais faz no comecinho da gestação.
Quando voltei de viagem, no comecinho de janeiro, caí da escada de casa. Meu marido ficou desesperado, mas eu não havia me dado conta de que estava de fato grávida, eu achava que enfrentava uma disfunção hormonal. Fui pro hospital e me levaram direto pra fazer um ultrassom.
Ouvi pela primeira vez o batimento do meu bebê. Chorei sem parar por alguns bons minutos e ali mesmo eu já tinha decidido que era aquilo, eu ia enfrentar o maior desafio da vida de uma mulher e ia proteger aquele pedacinho de mim a qualquer custo.
A gravidez passou na maior tranquilidade, nos mudamos pruma casa um pouco maior, minha mãe voltou para São Paulo para ficar mais perto de mim, recebi bastante apoio do pessoal do trabalho (pelo menos até o fim da licença rs ), da minha sogra, cunhada, do meu pai e meu companheiro foi o cara mais parceiro e paciente, enfrentando minhas alterações de humor, o cansaço, as dores, o medo e a ansiedade de uma mulher convivendo com uma enxurrada de hormônios – e depois me fortalecendo durante o puerpério.
Meu OBSTETRA, encontrado pelo plano depois de uma reclamação – já que passei por 9 e todos cobravam cerca de R$ 8.000, 00 pela “taxa de exclusividade”, obviamente para facilitar sua vida, não fazia parto aos finais de semana e ia viajar no período que Caetano estava previsto para nascer. Marcou uma cesárea para mim num dia x, quando aparentemente eu completaria exatas 38 semanas e o bebê não nasceria prematuro.
Um dia antes da cesárea, sem sinal nenhuma da vinda do Caetano, resolvi desmarcar a cirurgia e esperar o amadurecimento do meu pequeno (apesar da insegurança de ir contra uma opinião médica). Ainda sonhava com o parto normal.
O médico disse que sendo assim não poderia mais seguir como meu GO e eu fiquei, no final da gestação, passando semanalmente com a equipe de plantonista de uma maternidade grande, mas que nunca havia me visto na vida e tudo que eu tinha de informação para passar estava no cartão da gestante. Dia 16/08/2016, terça-feira, 7 horas da manhã, saí da Penha e enfrentei a Radial Leste no horário de pico para chegar na região da Paulista.
Estava quase completando 42 semanas e passei a madrugada mais dolorida da minha vida. Estava em trabalho de parto ativo! Meu colo estava fino, meu bebê havia descido e estava encaixado, bolsa estourou, tudo certo pro PN. Só que a equipe de plantonista disse que meu bebê era grande, que corria o risco dele ter que ser puxado por fórceps e as contrações doíam cada vez mais, eu ficando zureta. Aceitei a cesárea e às 21h01 Caetano nasceu. Lembro do pai dele chorando, lembro de ver pelo reflexo da lâmpada na minha cara um ferro enorme entrando na minha barriga para tirar o Caetano, lembro de pensar que ele havia nascido mais cabeçudo que o normal e ficar bastante preocupada, lembro dele ter mamado em mim segundos depois de ter saído do meu corpo.

 

Ter virado mãe foi a decisão mais corajosa que eu já tomei na minha vida. Para caminhar com minhas próprias pernas e criar meu filho da maneira como acredito tive que me empoderar ainda mais como mulher.

Ser mãe é enfrentar diariamente, de cabeça erguida, amor no coração e persistência, os julgamentos de pessoas que não tem a menor noção da sua realidade, das suas dificuldades; é lidar e enfrentar o medo latente de algo acontecer com aquela pessoa que desde o momento que saiu da sua barrigada está longe da sua proteção integral; é chorar com notícias de coisas ruins que acontecem com crianças; é sentir na pele todo o peso que uma sociedade machista joga nas nossas costas: a exigência pela maternidade perfeita e sem sofrimentos (que não existe), o mercado de trabalho que não se adapta para receber as mães e nos marginaliza (apesar da sociedade nos incentivar a ter filhos desde que somos pequenas), é tentar voltar a estudar e não ter vaga na creche da universidade, é tentar o tempo inteiro mudar o papel do pai, que ainda é o da “ajuda” e não o de compartilhar as responsabilidades (que ainda são vistas integralmente pela figura materna, responsável pela criação – afetiva e financeira – e pelo desenvolvimento das crianças); é chegar no final do dia esgotada física e emocionalmente depois de correr o dia todo atrás de uma criança que não para um segundo quieta e ter que escrever os trabalhos da faculdade durante a madrugada, sabendo que você ainda vai acordar, numa noite boa, umas três vezes para amamentar e às 7h vai ter que estar de pé, de segunda a segunda, disposta a brincar com a cria (e vocês ainda me perguntam porque eu saio muito raramente).

É ver passar aquele show que você queria ir, porque não tem com que deixar o filho, ou aquela oportunidade de emprego, porque não tem como chegar há tempo de pegar a cria na creche. É ver suas amigas mães terem a maior dificuldade do mundo de se relacionarem novamente porque os homens são, em sua grande maioria, uns babacas, e seus amigos pais vivendo suas vidas amorosas normalmente.

É sentir falta de um corpo que não existe mais, é ver sua autoestima ir pro chão e muitas vezes não ter nem tempo pra fazer algo pra mudar isso. Mas é também sentir pulsar um amor indescritivelmente gigante! É chorar, por vezes, de felicidade e amor, ao ver seu filho correndo em sua direção com os braços abertos e um sorriso de dez dentes no rosto (e sentir todo o seu corpo sorrindo de volta).

É saber que, por mais esgotada que você fique, você é tudo para aquele pedacinho de gente. É ir contra, diariamente, todo o preconceito que existe nesse mundo – e dentro de você mesma – para que seu filho seja livre para ser quem ele quer, da maneira como ele quiser, pelo simples fato de desejar que ele seja feliz acima de tudo.

É se permitir voltar a brincar de coisas que você adorava na infância. É ir pra praia e voltar a fazer castelo de areia. É ser uma pessoa muito mais compreensiva, paciente e tornar a palavra EMPATIA o eixo norteador da sua vida – eu também não sei das dificuldades que outra mãe enfrenta.

É ver um monte de amigo ir embora por um lado, mas pelo outro ganhar alguns poucos, que mesmo que visitem você e seu filho com menos frequência do que todos gostariam, estão lá, para te ouvir, para te abraçar, para te socorrer quando precisar, que amam seu filho demais. É ver seu feminismo fortalecido por viver na pele toda a dificuldade que uma sociedade patriarcal incute na vida de uma mulher.

É se sentir agradecida pelas mulheres que te rodeiam, que apoiam, e ajudam a tornar a maternidade um pouco mais leve, com uma rede de apoio foda. É, por vezes, sentir orgulho de você mesma (e, no meu caso, do meu companheiro) pela maneira como cria o rebento. E é também aprender a aceitar esse corpo tão diferente de dois anos atrás, com cicatrizes, com flacidez, com estrias, esse corpo que suporta seus corres diários, que guardou sua cria, que ainda a suporta nos braços e a alimenta, acalenta e abraça.

A maternidade é essa capacidade da gente se reinventar, da gente renascer todo santo dia das cinzas do dia anterior, como uma fênix. Não é fácil? Nem um pouco. Mas é o desafio mais lindo que eu já enfrentei.

AUTORA: 

Mariana tem 27 anos, é estudante de letras e pedagogia, aquariana, feminista, mãe do Caetano e problematizadora nas horas vagas da jornada tripla.

 

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