Dizem que, quando nasce um bebê, nasce também uma mãe. Mas, alerta de spoiler: é mentira!
O que ninguém fala é que o que nasce junto é uma criatura híbrida, metade ser humano, metade panda de olheiras profundas, com superpoderes questionáveis como ouvir o choro do filho a cinco quilômetros de distância, mas perder o celular que está com a lanterna ligada na própria mão.
Eu mesma só fui entender a palavra maternidade de verdade quando percebi que ela rima com loucura — claro que não no som, no sentido —, porque é uma dança entre amar profundamente e, ao mesmo tempo, sonhar com alguns minutos sozinha no banheiro.
No início, você imagina que vai ser igual aos comerciais de fralda: um bebê sorridente, uma mãe impecável, cabelo sedoso e uma casa branca sem uma mancha de suco. Pois bem, a realidade é outra.
O bebê sorri sim, só que logo depois de vomitar em você. O cabelo está sempre preso em um coque de guerra. E a casa branca? Só se for de sal, espalhado porque alguém achou engraçado brincar de receitas enquanto você faz faxina.
Ser mãe é como estar num reality show em tempo integral, com suas provas de resistência (muitas noites seguidas sem dormir. Qual foi o seu recorde?!); de criatividade (inventar um almoço digno com apenas arroz, ketchup e um resto de salgadinho fedido) e de paciência (responder 2597 vezes por que o céu é azul, até descobrir que, na verdade, não importa a resposta, mas a conversa).
Existe também um certo “clube das mães”.
A senha para entrar não é uma palavra secreta, mas uma cara com aquele olhar cúmplice que você troca no mercado quando seu filho está gritando porque quer o biscoito da prateleira mais cara. É como se os olhos dissessem: “Coragem, companheira, estamos juntas nessa trincheira”.
E, dentro desse clube, cada mãe tem suas loucuras particulares. Há a que coleciona roupinhas organizadas por cor, como se a vida fosse uma passarela; a que se sente ninja porque consegue vestir uma criança em movimento; e há a mãe que sempre esquece de levar algo essencial na bolsa e, geralmente, o próprio filho já está treinado para lembrá-la: Mãe, o lanche!
Um dos paradoxos mais engraçados da maternidade é que você nunca mais está sozinha, mas quase sempre se sente solitária.
Há sempre um “mamãe” ecoando, mas a sensação é de que ninguém ouve ou percebe que você também existe fora desse título.
Hoje em dia, me questiono sobre a ansiedade que temos dos bebês aprenderem a nos chamar de “mamãe” e como depois não toleramos mais escutar essa expressão algumas milhões de vezes por segundo diariamente.
Inclusive, outro dia disse ao meu caçula que é para me chamar pelo nome, pois, só para variar, gostaria de não escutar “mamãe” a toda hora. Mas, o mundo inteiro me chama de mãe, mamãe, mãezinha, e, de repente, o próprio nome parece uma lembrança distante.
Se eu pudesse escrever um manual da maternidade, ele teria menos conselhos técnicos e mais verdades divertidas, como: o café não é bebida, é combustível; silêncio em casa nunca é bom sinal; nenhum brinquedo é tão fascinante quanto a panela mais pesada da cozinha; seu corpo nunca mais será o mesmo, entretanto, se tornará uma fortaleza; e, por fim, você nunca mais será a mesma. E isso é bom, porque a nova versão de você é mais resiliente do que imaginava.
A maternidade é como uma série infinita de um streaming: você pensa que vai acabar uma temporada (o desfralde, a alfabetização, a adolescência), mas já começa outra, cheia de enredos inesperados. Não há “final feliz”, porque simplesmente não há final. O que existe são capítulos de amor, irritação, descobertas, gargalhadas, lágrimas e uma espécie de cumplicidade universal entre mães.
No fundo, a maternidade é o caos mais doce que alguém pode experimentar. É como viver num picadeiro de circo em que você é malabarista, palhaça e diretora do espetáculo ao mesmo tempo. E, mesmo quando tudo desmorona, você descobre que não trocaria essa confusão por nada.
Afinal, ser mãe é rir de si mesma, perder a sanidade diariamente, deixando chaves na porta e carros abertos, e, ainda assim, encontrar no abraço de um filho a maior sanidade de todas.
E talvez, só talvez, seja isso que nos mantêm de pé: a certeza de que, no meio da loucura, existe um amor que não cabe em manual nenhum.
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Aline Cadilhe – @alinecadlhe





