Nós dificilmente paramos para pensar como cada ação e escolha que realizamos pode definir o rumo da nossa vida toda. Não “temos tempo para isso”. E como saber também que aquela pequena escolha vai ser a tal que vai definir a sua vida toda em alguma área? Pois é, vou contar como isso aconteceu comigo alguns anos atrás.
Ser mãe para mim foi uma grande bênção, inesperada, mas perfeita no ‘timing’ e, desde o primeiro momento, eu decidi que daria sempre o meu melhor. E fui conseguindo até me deparar com a amamentação. Todos os cursos e livros que li não me prepararam para a frustração que seria não conseguir amamentar de forma intuitiva – como muita gente propaga por aí que é. Porém, após dias de tentativas e apoio de profissionais acolhedores, consegui o tão esperado amamentar sem dor. E neste momento, decidi que iria ajudar mães que não conseguem ou não podem amamentar seus bebês por algum motivo: eu me tornei uma doadora de leite materno. Toda semana, o projeto Bombeiros da Vida recolhia, em minha residência, meu excedente de leite, e essa rotina se manteve por aproximadamente 1 ano, quando a minha produção decaiu e não conseguia mais ordenhar. E finalizei esta missão com o coração alegre, pensando nas famílias que havia ajudado. Mal sabia eu que ainda iria ajudar mais famílias atendidas por este projeto, mas de outra forma.
Quando minha filha Eva fez um ano e meio, meu esposo e eu decidimos colocá-la em uma escola. Eu era estudante de nutrição, estava no segundo semestre da faculdade, e ele era professor universitário. Ter as manhãs livres seria um respiro para nós, que nos dividíamos com os cuidados da criança, casa e trabalho. Nesta escola, a Eva conheceu seus primeiros colegas de sala, e eu conheci algumas mães que seriam minhas colegas até hoje. Dentre elas, a Daniela, mãe do Guga (guardem esta informação, ela será relevante mais à frente). Um dia, conversando com as mães em um grupo de ‘zap’, comentei que era estudante de nutrição, e a Daniela respondeu que era nutricionista e professora na universidade federal do meu estado. Conversa vai e vem, ela me perguntou se eu gostaria de participar de um grupo de pesquisa e extensão em um hospital público de referência em neonatologia, e claro, eu aceitei na hora.
Neste hospital, iniciei minha trajetória pelo universo materno-infantil. Fui de aluna extensionista voluntária à estagiária remunerada, trabalhando lá por três anos. O Banco de Leite Humano foi a minha casa neste hospital, e pude aprender na prática sobre o cuidado neonatal, atuando diretamente com a cadeia de leite humano doado. Eu agora não era mais doadora de leite, mas ajudava as famílias de forma interna, através da nutrição. E foi esta escolha que definiu o meu nicho atual de trabalho: o público materno-infantil. Após concluir a minha graduação, me especializei e aprofundei ainda mais os meus estudos nesta área. Abri meu consultório, comecei a atender e fui engolida pela vida corrida. Acabei me distanciando das minhas colegas mães e a vida seguiu, implacável como sempre. Mas, novamente, a caixinha imprevisível da maternidade apareceu para me desafiar.
Aos 5 anos de idade, a Eva foi diagnosticada com o Transtorno do Espectro Autista e Déficit de Atenção, e eu, dando o meu melhor sempre, consumi o máximo de livros, artigos científicos e cursos para aprender como ajudá-la. A Eva iniciou com o suporte terapêutico, pois ela necessitava de fonoaudiologia e psicologia, e eu conheci o universo da neurociência. Perceber que eu poderia ajudar famílias através da neuronutrição me motivou a fazer um mestrado em Neurociências e Comportamento. E aqui aparece mais um daqueles momentos de escolha que muda o rumo de tudo.
E chegamos aos dias de hoje, minha filha, agora com 7 anos, segue progredindo nas terapias dela e sendo uma criança com autonomia e sociabilidade compatível para sua idade, além de ser aluna exemplar na escola. E eu, além de nutricionista materno-infantil, sou aluna de mestrado no Programa de Neurociências e Comportamento na Universidade Federal do Pará, tendo como orientadora a Daniela (lembram? a minha colega!), mãe do Guga, que também descobriu ser neurodivergente na mesma época que a Eva. O diagnóstico dele a inspirou a começar uma nova linha de pesquisa, agora em neurodesenvolvimento. E nos reencontramos, agora como mães atípicas e pesquisadoras, buscando fazer ciência para melhorar a vida de famílias neuroatípicas.
Por fim, posso dizer que a maternidade, a qual me escolheu, me levou, e me leva, a fazer as melhores escolhas da minha vida desde então. Essa foi a minha ‘pequena tal escolha’ que definiu tudo.
Autora: Livia Martins / Instagram: @liviamartins_nutri





