Perder um bebê ainda na gestação ou logo após o nascimento é uma dor que, muitas vezes, não encontra espaço para ser expressa. Trata-se de um luto que a sociedade insiste em calar, como se ele não tivesse permissão para existir. Esse silêncio imposto se torna um fardo a mais para famílias que enfrentam a experiência da perda. Enquanto outras despedidas são cercadas de rituais, flores, abraços e condolências, a perda gestacional e neonatal costuma vir acompanhada de constrangimento, frases prontas ou tentativas de minimizar a dor.
Não se trata de uma dor maior ou menor que as demais, mas de uma dor negada. Uma ausência que se impõe antes mesmo de a vida ter se mostrado ao mundo. O bebê, muitas vezes, não chegou a ser conhecido pela família ampliada, não recebeu visitas, não foi apresentado em festas. Sua curta existência, no entanto, não diminui o vínculo já criado pelos pais que sonharam, imaginaram esse bebê.
O problema é que, para a sociedade, parece existir uma régua invisível: quanto mais cedo a perda acontece, menos legítima é a dor. Essa lógica, profundamente injusta, retira das famílias o direito de viver e expressar o luto. Assim, mães e pais se veem obrigados a carregar em silêncio um sofrimento que é, ao mesmo tempo, íntimo e inominável.
O peso do silêncio
Tudo estava pronto para a chegada de um filho e, de repente, o que se experimenta é um grande e barulhento silêncio. Não há choro, risadinhas ou o fuzuê característico da infância, mas sim um vazio que ocupa todo o espaço de maneira atormentadora.
Esse silêncio se materializa nas frases automáticas: “Vocês são jovens, terão outros filhos”, “Ainda bem que foi no começo”, “É melhor não pensar nisso”, palavras que, embora bem-intencionadas, ampliam a solidão de quem perdeu aquilo que mais importava.
Enquanto isso, a realidade da perda se impõe de forma brutal: o corpo que sangra ou cicatriza, o leite que desce sem bebê para mamar, o berço que não será usado. Nada disso cabe em eufemismos. É uma experiência concreta, física, emocional e social, que não pode ser varrida para baixo do tapete do silêncio coletivo.
Outubro Rosa e Azul: mais que um mês, um chamado
É nesse contexto que o mês de outubro ganha relevância. No dia 15, o mundo marca o Dia Internacional de Conscientização da Perda Gestacional e Neonatal. Prédios se iluminam de rosa e azul e campanhas ganham força, mas, o verdadeiro sentido desse movimento vai além da simbologia das cores: trata-se de abrir espaço para falar daquilo que sempre foi silenciado.
Não se trata de transformar a dor em espetáculo, mas de criar um território de reconhecimento e acolhimento. Falar sobre o tema é, antes de tudo, um ato de respeito. É permitir que mães e pais saibam que não estão sozinhos, que sua experiência importa e que seu bebê, mesmo de breve vida, nunca será esquecido.
Assim, outubro se torna um convite a ouvir, respeitar e nomear essa experiência; e também um chamado à sociedade, porque a cada vez que ignoramos, diminuímos ou romantizamos essa dor, reforçamos a violência do silêncio.
Passos que começam a contar histórias
Esse movimento de visibilidade tem se refletido em avanços legais. A mais recente conquista é a Lei 15.139/2025, que institui a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental. Pela primeira vez, o Brasil reconhece formalmente a legitimidade desse luto.
Entre os direitos garantidos, a lei prevê que famílias possam nomear seus bebês, realizar rituais de despedida, ter acomodação separada nos hospitais, receber acompanhamento psicológico, investigar a causa da morte e contar com profissionais capacitados. De forma simbólica e potente, oficializa outubro como o Mês de Conscientização do Luto Gestacional e Neonatal.
Essas conquistas não anulam a dor, mas oferecem legitimidade. São passos concretos que mostram que o país começa, mesmo que timidamente, a compreender que esse luto existe, é legítimo e precisa ser amparado.
Por que precisamos falar disso?
Falar sobre o luto perinatal é encarar algo que a sociedade prefere evitar: a fragilidade da vida, a finitude, o inesperado. Mas enquanto fugimos dessa conversa, milhares de famílias enfrentam sua dor isoladamente, expostas a adoecimentos psíquicos e a um sentimento de exclusão social.
Reconhecer esse luto não é abrir feridas, mas oferecer espaço para que elas cicatrizem com dignidade. É dizer: “eu vejo você, eu vejo o seu bebê”. É transformar invisibilidade em memória.
O que cada um pode fazer
Não é preciso ser especialista para apoiar famílias enlutadas pela morte de seu bebê. Na verdade, o que elas mais precisam não são de respostas prontas, mas de presença com escuta, tempo e respeito.
Precisamos também rever nossas crenças. O mito de que “o tempo cura tudo” ou que “um novo bebê substituirá o anterior” precisa ser desconstruído. Cada filho, cada vínculo e cada ausência são únicos.
Nomeando o que é real
O luto perinatal não é uma exceção rara, embora ainda pouco se fale dele. Todos os anos, milhares de famílias enfrentam essa realidade e, a falta de reconhecimento, o peso do silêncio e a ausência de espaço para lembrar potencializam a vivência dessa dor.
Ao falar desse luto, não estamos apenas contando histórias de dor. Estamos construindo uma cultura de respeito, acolhimento e humanidade. Estamos dizendo que nenhuma vida, por mais breve que seja, deve ser ignorada.
Outubro Rosa e Azul nos lembra que é hora de quebrar o silêncio, mas que esse compromisso precisa durar o ano inteiro, a fim de garantir que nenhuma mãe, nenhum pai, precise viver sozinho aquilo que já é intolerável por si só.
Ao falar sobre o luto gestacional e neonatal, não estamos apenas dando voz às famílias enlutadas. Estamos abrindo caminho para que futuras gerações encontrem um mundo mais acolhedor: um mundo onde a dor não precise ser escondida para ser tolerada.
Por Natália Aguilar – @nataliaaguilarpsicologa





