O peso

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Aos 4 anos, 4 meses e alguns dias, precisei levar minha filha para a segunda dose da vacina contra Covid. Em pé, na fila, ela subia e descia do meu colo com seus 17 quilos pressionando minha costela que doía há alguns dias. Pedi que ela ficasse quieta porque eu estava sentindo muita dor. Ela se aquietou, me abraçou, me beijou e disse: “eu queria que você fosse magra.”

Essa frase me levou para os 15 anos, quando um namorado de 18 riu de mim porque contei que usava calças tamanho 42 e ele respondeu que, mesmo sendo homem, usava 38. Não superei essa conversa e eventualmente terminei com ele depois, mesmo sem saber por qual motivo aquela observação absurda e sem sentido me fez sentir humilhada. Mas foi a partir daí que passei a querer ser magra: dos 15 até sei lá quando, porque quando saí da anorexia foi por substituí-la, gradativamente, pela bulimia. Ser magra era meu objetivo de vida. A “força de vontade” de parar de comer que tínhamos vivido com a minha mãe, sempre aplaudida pela família pelo autocontrole e pela magreza. E os aplausos que se repetiram para mim, com o tempo, se transformaram em uma vergonha a ser escondida: comia tudo rapidamente e vomitava tudo rapidamente. Não queria mostrar que tinha perdido o controle. Foram anos acumulando gastrite, úlceras, faringites – consequências que, nunca comentei, foram causadas pelo vômito forçado. As escovas de cabo longo, as técnicas com o dedo palato mole, o jeito de virar a língua e abaixar a parte de trás que, até hoje, me causa ânsia. Sim, filha, eu também queria ser magra. Até ter uma menina no colo e ser forçada a mudar de ideia.

Talvez eu não tenha tido consciência de peso desde os 4 anos, como ela, que é magra e todo mundo faz questão de elogiar. Ela nasceu comprida, o peso abaixo da curva. Eu, não. Sempre fui acima do peso, exceto na fase da anorexia e agora, pós-gravidez, vinte quilos acima do peso da gestação, que já eram vinte quilos acima do peso da anorexia. Principalmente, eu não queria que ela, aos 4, pudesse projetar um futuro cujo objetivo fosse ter 1,71m e pesar 45 quilos. Tudo isso me passou pela cabeça em milésimos enquanto respirei fundo e só consegui responder “o quê? Ela riu constrangida, como se soubesse ter dito alguma coisa ruim. Mas repetiu a observação. E emendou: “as mães das minhas amigas são magras”. E elas eram mesmo. E tinham carrões e empregos em escritórios e andavam sempre muito bem arrumadas, os sapatos de salto sempre tec tec tec tec no corredor da escolinha. Tanta coisa nelas era diferente de mim. Mas ela escolheu o peso.

No caminho de volta pra casa, estressadas pelo dia cheio e pela dor da vacina, entre suas provocações e reclamações, eu perdia a batalha do dia. E do objetivo de vida. Vendo meu silêncio diante das reclamações, minha filha perguntou se eu estava triste e eu disse que sim, que estava triste porque ela queria que eu fosse diferente e ser diferente era como ter que ser outra pessoa. E que não tinha nada que eu pudesse fazer para ser de outro jeito. Não ia, é claro, de forma alguma, entrar no mérito de dietas, atividades físicas e canetas pra emagrecer a mais de mil reais a dose. Senti que dei um passo gigante numa direção desconhecida, porque cresci ouvindo que deveria mudar meu corpo e continuo fazendo coisas para mudá-lo enquanto digo que não posso. Mas não quero que ela veja isso como possibilidade. Não quero que ela veja a canetinha guardada na geladeira.

Desde que ela nasceu, um dos meus trabalhos é não odiar meu corpo – este corpo que a produziu, que está neste formato porque a abrigou. Um papo clichê do qual tento fugir mas parece impossível, porque toda (a) maternidade é clichê. Tantas outras observações anteriores que ela fez – ‘sua barriga é mole’, ‘você é grande demais para esse balanço’, ‘você é comilona’ – eu interpretei como uma fala isenta de ideologias vinda de uma criança de 4 anos e me esforcei pra que não soassem, na minha cabeça de mulher de quase 40, como controle do meu corpo, da minha vivência, da minha existência. Cresci entre revistas que prometiam “corpo perfeito para o verão” ao lado de “como ser executiva de sucesso”. Tudo a mesma coisa, vários papéis que você assumiria se conseguisse se esforçassar o suficiente. Meu entendimento era: corpo perfeito para sucesso profissional e amoroso. Sem barriga. “Barriga negativa”, inclusive. A minha nunca foi assim e agora, menos ainda. Pensei anos sobre ter um corpo perfeito para dar ao desfrute do ser que eu mais amasse. Só entendi que já tinha isso com minha filha no colo. Era o corpo mais perfeito que ela podia querer para mamar, ganhar colo, dormir, fazer passar as dores. Era meu corpo, até mais que meu afeto, que ela buscava – era a minha temperatura, meu ritmo, os sons que conhecia desde antes de nascer. Depois de nascer, era meu cheiro, minha textura, meu calor, meu colo. O corpo perfeito para o maior amor que tive.

Mas “eu queria que você fosse magra” foi tão explícito que me resultou inadiável. Perguntei: “você não ficaria triste se eu dissesse que queria que você tivesse olhos azuis?” Ela concordou. “E você pode ter olhos azuis?” “Não.” “Olha, eu estou feliz assim, não vou mudar, não quero que você espere que eu seja diferente. Espero que possa me amar como sou.” Não porque eu realmente acreditasse no que falava, mas porque esperava que ela fosse capaz de dizer o mesmo sobre ela um dia. Esperava que eu fosse capaz de repetir isso para mim e achar verdade. Talvez eu só possa me achar bonita agora porque olho para ela, a acho linda, e penso que fui capaz de gerar um ser humano lindo contribuindo com alguma genética – então é possível que eu seja linda, apesar dos comentários que ouvi a vida inteira, inclusive dela.

Por Marina Legroski – @marinalegroski

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