Maternidade sem máscara: identidade, culpa e silêncio

Welen Nunes 576x1024

Maternidade sem máscara: identidade, culpa e silêncio, Welen Nunes de Lima – @welennunes

Eu nunca desejei a maternidade como um ideal de vida ou como objetivo único da minha existência, jamais me enxerguei neste papel. A verdade é que ela não era algo que eu buscava e, quando chegou, não foi uma escolha consciente, planejada ou tão celebrada como de costume. Foi um choque, um acontecimento inesperado que me atravessou o peito num momento em que minha vida finalmente parecia tomar rumo. Eu havia sido aceita no mestrado acadêmico na minha área, estava começando minha carreira profissional, realizando sonhos antigos, construindo um caminho com muito esforço e dedicação, tentando me organizar financeira e emocionalmente.

De repente, tudo mudou e precisei pausar todos os meus sonhos. Era como se uma avalanche tivesse desabado sobre mim, soterrado os projetos, as vontades e as possibilidades. Tive que aprender a cuidar de um bebê sem sequer saber como colocar uma fralda. Tudo era novo, era como caminhar no escuro, tropeçando em responsabilidades que surgiam sem aviso. Vi meus planos escorregarem entre os dedos, um a um, enquanto meu corpo mudava sem que eu tivesse tempo ou energia para processar tantas mudanças.

As pessoas ao redor me parabenizavam pelo bebê, sorriam e compravam presentes. Faziam perguntas sobre o nome, o enxoval, o quarto e o parto. Mas ninguém perguntava sobre mim. Ninguém olhava nos meus olhos para saber como eu estava. Como eu me sentia ou se eu precisava de algo. A figura da mãe surgiu e me engoliu por completo. E, por trás da imagem doce e maternal que projetavam sobre mim, havia uma mulher cansada, perdida, triste, que encarava seu reflexo no espelho todas as manhãs e não se reconhecia.

Eu tentava sobreviver a noites sem dormir, a um corpo que não parecia meu e a um casamento que desmoronava em silêncio, corroído pela falta de diálogo, pela sobrecarga e pelo machismo estrutural que se infiltrava nos detalhes da rotina.

Porque, enquanto eu cuidava do bebê, da casa, das demandas que nunca acabavam, o pai da criança — como tantos outros — seguia sua vida com relativa normalidade. E a sociedade o aplaudia por “ajudar” com o mínimo, enquanto me cobrava perfeição, paciência infinita, instinto maternal e gratidão.

Carregava cicatrizes novas e antigas. Sentia o medo constante de não estar sendo boa o suficiente. E a culpa. A culpa por não viver aquela felicidade instantânea e plena que todos diziam ser automática e natural e por não amar com aquela intensidade idealizada nos filmes e comerciais de margarina. A culpa por querer, em alguns momentos, fugir…desaparecer. Ter de volta um pedaço de mim, a minha vida antiga.

A verdade é que nada foi bonito como nos relatos que eu ouvia sobre a maternidade, pelo menos não inicialmente. Foi cruel, pesado e solitário. A dor, o medo e a depressão me alcançaram com uma força que não sei descrever. E por um tempo, eu achei que não voltaria. Achei que aquela mulher que eu tinha sido antes não existia mais e talvez não existisse mesmo.

E tudo isso é parte de algo muito maior do que apenas a minha experiência. A maternidade na nossa sociedade, ainda é atravessada por uma cultura profundamente machista e patriarcal, que impõe à mulher um papel de doação total, como se a sua existência só fizesse sentido quando subordinada ao cuidado do outro. A romantização da maternidade serve a esse sistema: faz parecer que o sofrimento é natural, que o cansaço é nobre, que a dor é símbolo de amor. Faz parecer que reclamar é egoísmo, que pedir ajuda é fraqueza, que desejar espaço próprio é falta de amor pelo filho.

O patriarcado nos ensina que ser mãe é sinônimo de abnegação. Onde é bonito se anular pelos filhos, é esperado que suportemos tudo: a exaustão, a solidão, o abandono, a violência obstétrica e a ausência do parceiro. A mulher que não sorri ao amamentar, que não se derrete ao trocar fraldas, que sente saudade de si mesma, é uma mãe ruim. Esse julgamento constante nos sufoca. Nos faz acreditar que somos falhas, que estamos errando, quando na verdade, estamos apenas reproduzindo um sistema injusto que cobra muito e não oferece nada em troca.

Foi no meio desse caos que comecei a encontrar uma força que não sabia de onde vinha. Uma força silenciosa e resistente. Comecei a me reconstruir aos poucos, a encontrar pequenos momentos de felicidade no cotidiano, nos momentos em que conseguia respirar sem culpa, nos dias em que conseguia me olhar no espelho e reconhecer aquela mulher que um dia existiu em mim.

Comecei a entender que eu precisava cuidar de mim também, não era egoísmo me colocar como prioridade em alguns instantes. O amor não nasce da mesma forma para todas as mães, não existe um modelo único de maternidade, cada mulher tem o direito de viver essa experiência à sua maneira, com suas dores e descobertas, suas verdades e limites.

Aprendi a respeitar minhas dores, a dar nome aos meus traumas, a entender que renascer dói, mas também ensina. A maternidade não me salvou, mas me virou do avesso. Me transformou em algo que estou aprendendo a ser. Não mais a mesma, porém mais consciente e mais real.

E hoje eu sei: ser mãe não é sinônimo de perfeição. É um processo de luta, de construção, de resistência diária contra uma sociedade que insiste em nos apagar. Ser mãe, nesse mundo, é um ato político.

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