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Sempre que eu falo sobre maternidade real e como eu lido com ela as pessoas se espantam. Não sou mãe solo, também não sou casada com o pai dos pequenos.

Sou mãe ausente. Isso mesmo ausente, você não entendeu errado. Sou mãe ausente.

Entenda a diferença: Mãe solo é aquela que carrega o filho como canguru pra cima e pra baixo, se vira em 100, sempre esta se reprogramando pra poder conseguir tomar um banho relaxante. É aquela mãe que levanta cedo, leva o filho pra escola, corre pro ponto de ónibus,vai trabalhar, faz o trampo como se tivesse dez amos fazendo a mesma coisa, volta pega o filho na escola.

Em casa, faz a janta, lava roupa, ajuda no dever do filho, conta historias, brinca, arruma a mochila e a roupa pro dia seguinte,coloca pra dormir e aí sim vai pensar nela,mas pra ela é só um banho e a cama, pq dentro de poucas horas ela esta de pé de novo.

No fim do mês precisa colocar comida na geladeira e armário, pagar as contas,comprar roupa pro filho, sapato, quando o filho fica doente atrapalha toda essa rotina, precisa ligar no trampo e explicar a situação, pede dez mil desculpas, corre pro medico com o filho e pede em silencio ajuda divina pra que não seja mandada embora.

Se ela ficar doente que se dane, quem vai se importar? O filho que vai cuidar dela? Que vai levá-la ao medico? Claro que não, ela toma um remédio qualquer pra dor muscular e vai fazer seus corre afinal ela esta sozinha nessa, o pai da criança não tem tempo e/ou dinheiro pra ajudar. Pensão? Só por ameaça de denúncia e mesmo assim tem pai que tem coragem de dar R$50,00. “E não reclama não, porque quem abriu as pernas foi você”.

Eu não passo por isso. Eu sou a mãe ausente, a que trabalha e estuda por um futuro melhor para os pequenos Que não dorme direito pensando no que os filhos estão comendo, bebendo, vestindo,se tem calcinhas e/ou cuecas, blusas de frio, meias, cobertas, travesseiros, brinquedos. Que paga pensão todo mês e mais um pouco no decorrer das semanas porque o pai nunca sabe guardar dinheiro e como não sou eu que cuido,”me sobra dinheiro.” Eu sou “a mãe que não ama.” Eu sou a que “largou a família pra se prostituir”

Eu sou a que “não é mulher pra assumir suas responsabilidades” Eu sou a “que se amasse, iria pra debaixo da ponte mas não deixaria com o pai”.  Eu sou a “egoísta”.

Eu consigo tomar um banho sossegado, mas eu sou a que não falta no trampo, a que não desiste da faculdade, eu sou a que faz hora extra e trabalha de domingo a domingo, eu sou a dorme tarde e acorda cedo estudando, se preocupando, chorando de saudade e se culpando de tudo, pensando num futuro que nem eu sei como será.

Eu sou a que tem depressão pós-parto, ansiedade, síndrome do pânico e TOC. Eu sou a mae violentada e agredida pelo ex-marido. Eu sou a mãe que detesta ser mãe. Eu sou aquela que não tem fotos da barriga, da gravidez, chá de bebe e parto.

Eu sou a que não tem fotos dos filhos recém nascidos. Eu sou a que não gosta de lembrar que existem duas pessoinhas sob minha responsabilidade pelo resto da minha vida. Eu sou a que odiava os peitos cheios de leite. Que sofreu violência obstétrica que deixou sequelas. Eu sou a que ficou 3 meses indo no hospital todos os dias pra que o filho caçula sobrevivesse e mesmo assim eu era a inútil.

Eu era a que lavava, passava, cozinhava, mãe de todo mundo, empregada de todo mundo, puta a noite mesmo sem vontade e a incompetente diante aos amigos e familiares.

Sou a mãe ausente porque não sou que cuido. Sou a mãe ausente porque não os vejo de 15 em 15 dias como manda a lei. Sou a mãe ausente porque meus filhos não estão comigo o dia inteiro. Sou a mãe ausente que nunca esta junto no dia do aniversario, natal, ano novo, dia das crianças.

Mas eu sou uma mãe com saúde mental;
Eu sou a mãe que faz seus corre mesmo que o resultado seja a longo prazo;
Eu sou a mãe que não desiste;
Eu sou a mãe que sempre lembra;
Eu sou a mãe que sempre toma as piores decisões;
Eu sou a mãe que marca as consultas médicas;
Eu sou a mãe que cobra as vacinas em dia;
Eu sou a mãe que sente saudade;
Eu sou a mãe que babo;
Eu sou a mãe que ama tanto que dói.

Mas eu sou mãe ausente.

Autora: Bru Ferreira, mulher negra, periférica e mãe ausente.

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