Forte como minha mãe

IMG 1208 Natasha Fonseca 1024x683

É curioso pensar o quanto nós, mães, nos cobramos o tempo todo. A todo momento. Em quase todas as situações cotidianas.

Pois vejam vocês: há alguns dias, meu filho, de três anos, teve impetigo. Quem já passou por essa experiência sabe o quão ruim é. Mas não era um impetigo clássico do período escolar — era um muito peculiar, com várias lesões no tronco que se abriram rapidamente e o deixavam coçando muito.

Se meu filho estava sofrendo com a coceira e as lesões, eu, naturalmente, estava me desmanchando. Mas tinha que me conter. Afinal, era necessário fazer a assepsia correta duas vezes ao dia e ministrar os remédios — o que já é um exercício desafiador para uma criança nessa faixa etária.

Cada vez que íamos limpar os machucados, começava uma sinfonia orquestrada de choro e berros. E eu tentava manejar a situação de forma acolhedora. Bastava ele ver a pomada, o algodão ou a gaze para começar a chorar — e eu me segurava para não acompanhá-lo.

Explicava que havia germes muito malvados no machucado e que era preciso limpar para tirá-los, senão eles iam morar ali e deixá-lo doente. Aplicava o remédio, ele esgoelava, e em seguida eu o acalentava, oferecia meu abraço e dizia que estava tudo bem chorar, que era doloroso mesmo, mas que ele era muito corajoso. Estava tudo bem chorar, que era doloroso mesmo.

Estava tudo bem chorar — afinal, até os super-heróis choram,  porque eles também são fortes. E quem é forte também chora.

Ele me olhava com os olhinhos curiosos e fungando perguntava, se até o Hulk chorava. E eu respondia que sim, até o Hulk, assim como os animais, os amigos e o papai. Logo depois, ele esquecia do momento e começava a contar seus casos.

Os dias passaram, ele ficou ótimo, o impetigo foi embora (ufa, ainda bem!) e voltamos à nossa rotina. Eu também voltei à minha: mãe que estuda, trabalha, cuida do filho e da casa.

Nessa correria da vida citadina em que somos mergulhados diariamente, muitas vezes esquecemos de tantas coisas — da panela no fogo, da chave na porta, da roupa por estender, daquela limpeza no guarda-roupa prometida desde o início do ano — e, às vezes, até de momentos em que não demos a devida atenção.

Numa certa semana, o azar me escolheu a dedo entre milhões de pessoas no mundo, porque tudo estava dando errado. Os prazos das entregas se aproximavam, havia aulas para elaborar, burocracias que surgiam do nada para serem resolvidas — e ninguém parecia apto a resolver.

Nesses momentos, é claro, não podemos reclamar ao universo que nada dá certo, porque pode ser que ele escute e piore. A melhor solução é manter a paciência — essa virtude que nós, mães, muitas vezes não temos.

O estopim foi, como sempre, uma burocracia que não se resolvia de forma alguma. Mesmo assim, ao final do dia, busquei meu filho na escola com o melhor abraço que tenho, peguei o sagrado ônibus de todos os dias até em casa e comecei a rotina noturna como sempre.

Mas, enquanto estávamos sentados colorindo juntos, me lembrei de toda a raiva que passei no dia, das milhares de pendências — e comecei a chorar. Assim, do nada.

Muitas vezes, nós, mães, evitamos ao máximo expor aos nossos filhos que somos frágeis e suscetíveis às tribulações da vida. A gente aguenta o máximo que consegue para não afetar negativamente a candura da infância deles.

Um verdadeiro superpoder.

Mas ali estava eu.

Meu filho olhou para mim e perguntou

— O que foi, mamãe?

Respondi: — Nada, só tive um dia muito cansativo. Mamãe ficou meio triste com algumas coisas, mas já passou.

Ele não disse nada, apenas me abraçou — e confesso que aquilo me pegou desprevenida.

— Tudo bem, mamãe. Só as pessoas fortes choram.

Aquilo me encantou de uma forma desmedida. Muitas vezes estamos tão imbuídas em tentar ser fortes o tempo todo que não percebemos a nossa grandeza, a nossa força.

Esquecemos de todos os momentos em que só uma mãe dá conta com maestria — a começar pelo parto, puerpério, amamentação — e de quando cuidamos dos filhos doentes mesmo precisando de cuidados; de lembrar o dia de devolver o livro da escolinha, enquanto às vezes nos esquecemos de passar um rímel para ir trabalhar; e de arranjar força mesmo doentes, deixando nossas necessidades em segundo plano para focar neles.

E é sobre isso: nós, mães, somos fortes. O tempo todo. Ainda que nem sempre percebamos. E está tudo bem chorar às vezes, precisar de colo, de abraços, de relaxar, respirar, suspirar, ser pequeninha diante da imensidão do universo.

Tem que ser muito grande para fazer o mundo inteiro caber no peito.

Em um mundo que cobra performances, nós, mães, temos a melhor profissão do mundo: formar o coração de nossos filhos diariamente.

Não se culpe por, às vezes, não entregar o seu melhor. Afinal, toda mãe é forte — a sua, a minha, e claro, nós!

Por Natasha Fonseca – @natsfonseca

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