Era Dia dos Namorados. Saí com minha amiga decidida a encontrar alguém. Na brincadeira, disse “vou começar o Dia dos Namorados sem um namorado, mas vou terminar com um marido”. Será que sou bruxa? Hahahah!!! Devo ser, pois foi “dito e feito”.
Estava no balcão do bar, que tinha um daqueles espelhos por trás das bebidas. Foi pelo espelho que o vi. Lembro claramente de ter pensado, sem hesitação, que era ele quem eu procurava. Mas sou “das antigas” e, tímida, não abordei o lindo rapaz moreno de gola rolê (piada interna). Mas eu paquerei. Ah, minhas caras mães que escrevem e leem!!, eu paquerei, e muito!! Olhares através do espelho, provocações com o brilho labial (sim, estava determinada e fui até bem atrevida para os meus padrões). Pensei “caso não tenha ficado claro que sim, estou interessada, sim, ele pode e deve se aproximar…” Deixei claro: saquei meu gloss labial, esperei que ele me olhasse e passei nos lábios, olhando pelo espelho, diretamente em seus lindos olhos castanhos. Foi o que basta.
Ele veio até mim, conversamos, por horas. Algo muito importante num início de relação. Não me imagino vivendo com alguém com quem não tenho vontade de conversar, alguém de quem a opinião me incomoda ou não interessa. Ele, punk inveterado (embora estivesse “à paisana” aquela noite), não usava celular e não pediu meu número. Pensei “bem, ok, sem problemas”. Eu estava numa fase bem despreocupada da vida, sem grandes expectativas e querendo mesmo era curtir os momentos. Se não houvesse continuidade, tudo bem por mim.
Mas ele não. Ele apenas disfarçou (segundo ele, tempo depois, confidenciou). Não queria transparecer o interesse. Duas semanas depois, ele voltou no mesmo lugar (que eu e minha amiga frequentávamos com frequência conforme eu havia lhe contado) procurando por mim. Ficamos juntos novamente (na época chamava “ficar”, hoje não faço ideia como chama). Dessa vez, no fim da noite, ele disse “anota aí no seu celular o meu número. Se quiser um dia saímos juntos”. Achei aquilo de um atrevimento sem limites. E adorei. Era 2004, e eu ainda estava no meio do caminho em termos de contestação dos papéis de gênero estabelecidos pela sociedade conservadora. Mas a ideia dele deixar a decisão em minhas mãos me pareceu a confirmação do que eu já estava pensando: ele era diferente. O tipo de diferente que eu queria.
Liguei para ele, algumas semanas depois. O teste final: cinema. Deixei que ele indicasse o filme. Escolheu “Diários de motocicleta”. O último “carinha” havia me chamado para ver “Homem aranha”. Como dizem por aí “quem me conhece sabe” que eu jamais iria, por iniciativa própria, ao cinema para assistir D.C. comics. Hoje, vinte anos e algumas sessões de cinema depois, ainda estamos buscando nos ajustar um à vida do outro. Porque o namoro, o casamento, é isso. Um eterno buscar e ajustar-se um ao outro.