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Em primeiro lugar quero me desculpar por colocar a palavra “PROBLEMA” logo no título porque ela soa bem pejorativa, mas por isso mesmo coloquei entre aspas. Eu poderia sim ter escolhido alguma outra palavra mais suave aos olhos, mas esse texto não vai ser suave e no decorrer dele vamos entender o porquê de usá-la.

Em abril deste ano, foi sancionada uma lei que prevê uma comunicação silenciosa ao Conselho Tutelar sobre os casos de automutilação nos hospitais e escolas com intuito de prevenir o suicídio entre crianças e adolescentes. Não vou negar que é uma boa medida se nós tivéssemos profissionais preparados para identificar os sintomas ANTES de chegar a esse ponto.

Não menosprezando nem tirando a responsabilidade que as famílias têm (ou deveriam ter) sobre as crianças e adolescentes, o fato é que a maioria das vezes quem está mais próximo dos mesmos são os profissionais que trabalham com os jovens. Quantos não moram em abrigos e frequentam as escolas com o auxílio das cuidadoras? Quantas famílias são totalmente ausentes, seja por necessidade ou por disfuncionalidade? Quantas famílias, mesmos tidas como funcionais e/ou tradicionais, independente do grau de instrução dos integrantes, não têm acesso às informações necessárias porque as mesmas não são espalhadas como deveriam?

Quais as chances de uma mãe, seja ela dona de casa ou gerente de projetos de uma multinacional, que nunca tiveram que lidar efetivamente com transtornos ou deficiências, que no máximo conhecem a Síndrome de Down por ter a característica bem aparente ou casos mais severos que são realmente evidentes desde muito cedo, têm chances de descobrir que estão lidando com um caso atípico no seio familiar? Muitos não têm essa noção, muitos precisam de informação e essa informação deve chegar de uma forma efetiva. E, muitas vezes, nosso único elo é com o corpo docente.

Que seria essencial termos psicólogos nas escolas não é segredo. Hoje em dia ninguém está livre de ter depressão nem mesmo os menores. Estima-se que o índice de suicídios entre crianças e adolescentes brasileiros aumentou 24% entre 2006 e 2015 e isso se dá, entre diversas questões, porque transtornos e deficiências não são identificados em tempo hábil para haver essa prevenção. Não apenas isso, além de faltar compreensão e tratamento, estes normalmente são submetidos a medidas punitivas e bullying que pioram seus casos e dificultam ainda mais as chances de ter uma vida possível e saudável, transformando assim em “problemas” para essa pessoa. E foi por isso que eu usei essa palavra.

Eu compreendo que nem todo mundo tem apoio para estudar tudo para identificar os sintomas, quando a pessoa é diferente ou está agindo diferente, quando alguém realmente precisa de ajuda ou não. Mas eu também tenho uma opinião muito firme quando se trata de tomar a responsabilidade sobre a carreira que você escolheu para a sua vida e compreender o que significa assumir aquele papel perante a sociedade.

Quando se é um clínico geral, por exemplo, você não tem a única função de diagnosticar o paciente, dar uma receita e chamar o próximo. Você precisa ter o conhecimento de entender o que está causando aquele sintoma, o que está causando uma possível série de infecções. Tem que ir a fundo. Quando você é um advogado defendendo uma pessoa, você não pode simplesmente chegar com um Vade Mecum e falar: “Olha, é assim e pronto”. As leis têm muitas interpretações. Da mesma forma, crianças e adolescentes, com ou sem deficiência, estão sujeitos a terem problemas psicológicos e psiquiátricos e o mínimo que os profissionais ao redor precisam saber é identificar que “algo não está indo muito bem”.

Recentemente tive uma série de conversas com familiares de deficientes mentais que me revelaram alguns casos seriamente perturbadores e mostram o despreparo dos profissionais.

Uma mãe de um rapaz de 19 anos, conversando comigo aleatoriamente na fila do mercado, confessou que seu filho tinha comportamentos que a deixavam preocupada. Ela dizia que ele era preguiçoso, desatento, estressado demais, que não gostava de pessoas da idade dele e que tinha momentos de nervoso em que ele parecia sair de si. Ouvindo assim, muita gente diria pra internar, pra dar surra, pra fazer várias barbaridades. Afinal, tem 19 anos, é revoltadinho. Então eu fiz algumas perguntas sobre a infância e a adolescência baseadas na minha vivência como mãe que pesquisa e aprende tudo o que pode para ajudar a filha e todo mundo ao redor.

Quando ela confirmou as minhas suspeitas, perguntei se ela já tinha levado ele para o psiquiatra ou a um neuro para pesquisar Deficiência Intelectual ou qualquer outro transtorno. A resposta foi: “Não, nunca suspeitei”. No meio da conversa (já fora do mercado) trocamos telefones e indiquei alguns caminhos para um possível diagnóstico (afinal, sou só uma ajuda que caiu do nada). Um tempo depois ela me mandou mensagem dizendo que ela havia o levado ao neuro e foi constatado que ele tinha um transtorno que não vem ao caso agora. Para a minha (não) surpresa, ele já tinha passado por psicólogos e nenhum suspeitou de nada. Ou não se atentou apenas.

Outra mãe disse que o filho de 9 anos estava com aulas de reforço no contra turno da escola regular, este diagnosticado com Deficiência Intelectual com crises de auto e heteroagressividade descritos no laudo. Um ano após nunca ter tido nenhum problema, o menino teve a crise e deu um tapa no ombro da psicopedagoga. A mãe, que ficava no ambiente escolar aguardando o menino justamente para intervir em casos como este, viu a psicopedagoga descendo as escadas que a informou sobre o que estava acontecendo. Quando ele iniciou uma crise e tentou bater novamente na mulher (e a mãe intervindo), a profissional disse que chamaria a polícia para ele caso ela fosse agredida novamente (tentativa de impor medo ao menino, mesmo com a mãe já intervindo, o que poderia ter causado uma crise muito forte e piorado toda a situação).

Teve mais uma mãe de uma menina de 13 anos que estava desesperada. A menina tem laudo de TDAH e a diretora da escola mandava a mãe tirar a mesma todos os dias da escola após o intervalo porque, segundo a diretora, “ela voltava do recreio agitada”. Infelizmente só o laudo do TDAH não dá muitos direitos, o que é totalmente injusto já que este é um transtorno que traz muitos problemas especialmente para a vida acadêmica da criança. Com esse tipo de comportamento por parte da escola, as notas da menina eram todas vermelhas porque ela perdia conteúdo e a escola não dava uma prova com um método especial, o que é um direito do aluno com este laudo.

São diversas histórias que ouço – e ajudo – diariamente. Não ajudo somente as famílias, mas também as escolas já que tenho alguns materiais separados e links para indicar. Os pais costumam estudar os mesmos e levar para a escola porque isso não é uma via de mão única e sim um trabalho em conjunto da família com a escola e com a sociedade como um todo.

Em pleno setembro amarelo quero chamar a atenção para isso. Muitas vezes os profissionais que deveriam estar mais preparados para, minimamente, perceber algo diferente não têm acesso a esse tipo de conteúdo e, com o perdão da sinceridade, vários que têm acesso não têm a mínima vontade de estudar os casos. Eu digo isso porque eu já entreguei material para escolas e ao comentar tempos depois, os mesmos ficaram com cara de surpresa como se eu nunca tivesse entregue nada (e não é nenhum TCC não, são artigos simples e resumidos).

Profissionais: sempre que receberem no seu consultório ou escola ou onde for um caso atípico, se informe. Não custa quase nada (ou se quiser ver tudo na Internet, nada), você aprende a ajudar aquela pessoa que precisa de você e ainda ganha conhecimento pra vida.

Famílias que têm esses casos em casa: exponham isso para os profissionais de maneira delicada. Sejam os melhores amigos, busquem conteúdo, ajudem a coletar material. É para o bem dos nossos.

Escolas: façam campanhas sérias de conscientização e antibullying, seja sobre capacitismo, racismo, intolerância religiosa, gordofobia, psicofobia, LGBTfobia, o que for. Todo mundo sai ganhando.

Referência 1 | Referência 2

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