Daquilo que tantas vezes me parece inominável

WhatsApp Image 2025 07 29 At 09.55.42 Carolina Prado

Costumamos, inclusive eu, nos referir à morte com o verbo “perda”. E eu perdi bem recentemente meu caçula, Bruno, de quase cinco meses. Adentrei janeiro de 2025 com um buraco no peito e meu maior pesadelo se tornando, enfim, realidade. Após uma batalha de pouco mais de dois intermináveis meses internados, meu filho me colocou no único lugar que jamais desejei ocupar: o de uma mãe enlutada.

Voltar para casa sem meu bebê não foi nada bom. Os primeiros dias na rotina da qual tanto sentia falta escancaravam todos os detalhes que gritavam “meu filho não tá mais aqui”. Pelo menos, não concretamente. Mas de alguma forma que ainda tento entender, precisei continuar viva. Por mim, pelo filho mais velho, por Bruno. E a vida vai se encarregando de ajeitar um espacinho pra acomodar nossas dores.

Engana-se quem pensa que o luto é algo a ser superado, como se um obstáculo fosse, uma doença ou algo contagioso. Será possível superar a perda de um filho? Posso afirmar que não. A gente aprende a olhar pros dias com alegria, mesmo que o buraco deixado pelo filho que se foi seja tantas vezes maior que nós mesmas. E tenta ser grata, porque foi bonito demais ser mãe de um bebê tão especial.

Bruno tinha síndrome de Down e era cardiopata. Daí o maior desafio: manter meu próprio coração batendo diante da enorme quantidade de sustos que vivenciei desde a gestação foi mais difícil do que treinar para uma meia maratona. Que hoje tornou-se, inclusive, propósito para honrar a memória de Bruninho.

Achava ser clichê e quase não compreendia quando ouvia que crianças com Trissomia 21 eram só amor, mas tive essa confirmação no momento em que meus olhos se encontraram com os dele. Meu filho sempre se comunicou pelo olhar, e lembrar daqueles olhos, que para mim, hoje, são as lembranças mais genuínas da sua condição, me despedaça, mas também me acalma.

É nessa toada de sentimentos ambivalentes que vou tentando aprender a elaborar o meu luto mais difícil. Meu filho ainda hoje tem a capacidade de me fazer sentir amada, querida, amparada. Pessoas chegam, puxam uma cadeira e decidem permanecer na minha vida. Aprendizados surgem até mesmo na fila do supermercado. E, ao mesmo tempo, esse serzinho tão pequeno e, na mesma medida, tão potente me deixa diante da ausência, do indizível, do silêncio — e, sobretudo, da solidão.

Ele me faz sentir saudade daquilo que não foi. Dos planos desfeitos, dos sonhos que serão para sempre sonhos e de ter o privilégio de acompanhar seu desenvolvimento e suas pequenas grandes conquistas. Mas também sinto falta daquilo que um dia foi presença. Das suas bochechas redondas, dos seus olhos azuis amendoados e do seu topete ruivo. Da correria que é ser mãe de dois e da relação de irmãos que entre ele e Gabriel começava a ser desenhada. Dói, e de uma forma ainda mais profunda, saber que nunca mais segurarei meu filho no colo ou sentirei o seu cheirinho calmante de bebê.

Concluo, então, que não perdi meu filho. O que não possuo mais é a convivência e sua presença física. Permanece em mim aquilo que é do interno, pois Bruno e seu amor para sempre farão parte de minha existência. Se gestar é da ordem do desejo, compreendo hoje que Bruno foi desde sempre muito desejado, mesmo que, num primeiro momento, inconscientemente.

E hoje sua ausência me convoca a continuar — mesmo que fisicamente separados —, desejante da vida, dos sonhos e principalmente de dar significado para sua breve passagem. Meu filho vive e me faz forte porque me autoriza a sentir todas as dores e as delícias que é ser sua mãe, mesmo que à distância.
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Autora: Carolina Prado / @carolinamprado

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