Sou eu, uma jovem menina. Jovem essa que carrega muitas bagagens, bagagens que talvez nem o maior bagageiro de um ônibus carregou.
Desde pequena, fui predestinada a viver o que vivo. Acho que quando eu nasci Deus olhou para mim e disse:
– Tu serás o teste de quanto um ser humano aguenta!
Às vezes sinto-me perdida nas minhas próprias escolhas, ou serão elas destino? Será que não escolho nem o que viver?
Tem dias que eu acordo e não sei quem sou. Agora com uma criança nos braços, criança essa que me faz viver. Mas que para eu viver tive que morrer antes. Sim, aquele dia me lembra morte. As dores, os sangramentos, ah como eu sentia-me despedaçando aos poucos. Quando a criança saiu, quis sentir alívio, mas só pude sentir preocupação. O que vai ser dessa criança, filha de alguém predestinado a sofrer? Sou só uma mulher negra de vinte e poucos anos, não sei o que quero para mim. Se sei, perdida estou e talvez parada esteja, esperando o dia que vá chegar.
Corpos negros são predestinados? Predestinados à violência, a sofrimento, violações, descaso. Minha sentença é essa: ter nascido mulher, negra e pobre. Nessa sociedade que pouco se importa com gente como a gente! Sou só a mulher raivosa, escandalosa, furiosa. Vocês esquecem ou não querem conhecer quem eu sou? Sou amor, paixão, dengo, ilusão. Sou afeto, companhia, baixaria. Sou o que sou, porque sou. Me fiz assim: arrepio, paixão, tesão. Disseram-me que eu sou teimosa, mas eu sou também amorosa, carinhosa, vaidosa. Quero mar, areia, vento no rosto, cabelo molhado.
Amo amar, amo ser amada, amo viver, amo me esconder.
Criando sensações e resgatando o ser ancestral.
Demarco meu espaço, macero a terra, me instalo ali.
Meus pés pertencem a esse lugar, os braços são levianos e decidem onde esse corpo vai. Sem deixar de demarcar esse espaço, ele me pertence;
Meu ori se mantém firme.
Essa sou eu, ou pelo menos, é o que ainda resta de mim.
Não queria falar sobre dor, mas enquanto eu estiver que me reafirmar aqui, vocês não…
Por Andrielle Razeira – @razeira_andrielle





