Durante a gravidez, parece que o corpo da mulher passa a ser visto como um bem coletivo. De repente, todos têm algo a dizer, e, às vezes, algo a tocar. Pessoas conhecidas (e até desconhecidas) se sentem à vontade para opinar, dar conselhos, fazer previsões e colocar a mão na barriga como se fosse natural.
Muitas vezes, esse gesto pode vir com boas intenções, como um sinal de carinho. Mas, na prática, ele atravessa um limite importante: o do corpo e da autonomia da mulher.
Entre o carinho e a invasão
Tocar a barriga de uma gestante sem permissão é algo que ainda se banaliza muito. A cena é comum: um encontro casual, um comentário sobre o tamanho da barriga, e logo vem a mão, quase automática. Para quem faz, pode parecer um ato afetuoso. Para quem recebe, pode ser um incômodo, às vezes sutil, às vezes profundo.
A gestação é um tempo de muitas transformações. O corpo muda, as emoções oscilam, e o mundo parece olhar para a mulher de outra forma. Nesse turbilhão, o respeito pelo espaço físico ganha ainda mais importância. O corpo da gestante não deixa de ser o seu próprio corpo. Ele não se torna público porque está gerando uma vida.
Quando os “pitacos” pesam
Além dos toques, há também os conselhos não solicitados, os famosos “pitacos”. E eles vêm de todos os lados: “Você tem que comer por dois”, “seu parto tem que ser normal”, “se fizer isso o bebê vai nascer cabeludo”.
Por trás dessas frases, pode sim, ter a intenção de ajudar. Mas o efeito costuma ser o oposto. A gestante, que já vive um turbilhão interno, passa a lidar com uma enxurrada de opiniões que nem sempre fazem sentido para ela. Isso pode gerar insegurança, culpa e a sensação de que não está fazendo o suficiente.
Cada mulher vive a gestação de um jeito. Cada corpo responde de uma forma. Cada história tem suas nuances. Quando esquecemos isso e tentamos encaixar todas na mesma cartilha, tiramos delas o direito de viver a experiência de maneira autêntica e singular.
Autonomia também é cuidado
Respeitar a gestante é também reconhecer sua capacidade de decidir. A ideia de que grávidas precisam ser “guiadas” por quem já passou por isso é antiga, e, muitas vezes, atravessada por um olhar que julga.
Mas o verdadeiro cuidado não está em controlar, e sim em apoiar. Perguntar se ela quer ouvir um conselho. Perguntar se pode tocar. Ou simplesmente oferecer um espaço de escuta. São gestos pequenos, mas que dizem muito.
Quando a mulher se sente respeitada, ela se fortalece. E quando o cuidado respeita os limites, ele se transforma em apoio genuíno.
O corpo continua sendo dela
É preciso repetir: o corpo da gestante ainda é o corpo dela. A gravidez não é uma autorização para invadir o espaço físico ou emocional de alguém.
Por isso, antes de colocar a mão na barriga de uma grávida, vale uma pausa. Um simples “posso tocar?” pode fazer toda a diferença. É uma forma de reconhecer que aquele corpo tem dono, e que aquela mulher tem direito de dizer sim ou não.
Escutar, em vez de ensinar
Muitas vezes, a melhor forma de apoiar uma gestante é escutando. Escutar de verdade, sem interromper, sem corrigir, sem precisar dar uma resposta pronta. Quando ela se sente ouvida, encontra espaço para elaborar seus medos, suas dúvidas e seus sentimentos.
Essa escuta é um tipo de cuidado silencioso, mas muito potente. É o que ajuda a mulher a confiar em si mesma e a viver sua experiência com mais presença e menos pressão.
Talvez a pergunta que devêssemos fazer diante de uma gestante não seja “de quantos meses você está?”, mas “como você está se sentindo?”.
E, antes de tocar, de aconselhar ou de opinar, que tal respirar e pensar:
“Eu tenho permissão para isso?”
Gestar é uma experiência íntima, profunda e, muitas vezes, solitária. O respeito aos limites da mulher é um gesto de amor, um amor que não invade, não ensina, não dita. Um amor que acolhe. Respeitar a autonomia e os limites da gestante é uma forma de cuidado verdadeiro.
E com você, como tem sido essa experiência? Já se sentiu invadida pelos “pitacos” ou pelos toques não autorizados?





