Coluna – Nem antes, nem depois — apenas o corpo que ficou

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Era uma manhã qualquer, igual a tantas outras, mas com uma diferença. Dessa vez, caminhei até o espelho de calcinha e sutiã — e parei. Parei para admirar, julgar e observar o corpo que, há sete semanas, deu à luz uma vida. Existem dois tipos de mulheres: as que voltam ao corpo de antes quase de imediato e as que demoram — ou nunca voltam. Adivinha só? Eu faço parte do segundo grupo. Poucas falam sobre essas mudanças, embora aconteçam o tempo todo. Já vi influenciadoras mostrarem estrias e as marcas do pós-parto. Mas também as vi depois, mostrando o “antes e depois” de uma academia ou de algum procedimento estético para recuperar a barriga chapada. O que eu quase nunca vejo são depoimentos sinceros de mulheres que simplesmente aceitam que o corpo nunca mais será o mesmo. Quando cheguei em casa após o parto da minha primeira filha, fiz uma limpa no guarda-roupa. Tirei todas as roupas que sabia que nunca mais usaria. Experimentei algumas, mas como meus seios duplicaram de tamanho e minha barriga continuava saliente, quase nada servia. O armário deu lugar a roupas confortáveis e práticas para amamentar. Passei meses cuidando da alimentação, fazendo yoga, usando cintas, mas sem muito sucesso. Os resultados vieram só dois anos depois, infelizmente após uma gravidez ectópica. Não foi exatamente a forma que eu escolheria para emagrecer. Anos depois, uma nova perda gestacional e, junto com ela, muitos quilos indesejados se foram, dessa vez entre lágrimas e sofrimento. Naquele período, eu já frequentava a academia e estava feliz com minha rotina de exercícios e alimentação, mas o luto foi, tristemente, o fator que mais me fez perder peso. Durante a gestação da Penélope, é óbvio que engordei de novo. A pergunta que mais me irritava era: “Quantos quilos você engordou?” Fui julgada por outras mulheres, pois nunca liguei para o famoso engordar um quilo por mês, já que meu peso não era mais importante do que a vida que eu estava gerando. Hoje, essa pergunta perdeu o sentido. Depois de tantas perdas e dores, cada grama que ganhei representa uma alegria que recuperei. Admiro (e um pouco as invejo) as mães que conseguem não ter barriga depois de dar à luz — seja por genética ou disciplina, mas eu escolho a leveza de não me comparar. Minha rotina agora é cuidar da minha filha, amamentar e tentar reprogramar o algoritmo que insiste em me mostrar shakes e promessas milagrosas para emagrecer. Meu corpo nunca mais será o que era. Ele gerou quatro vidas. E, assim como eu, ele mudou e hoje carrega quilos de amor.

Autor

  • Ana Paula Maciel Ribeiro Ana Paula Maciel Ribeiro

    Ana Paula Maciel Ribeiro é mãe de três, da Louise e de duas estrelinhas, e também uma catarinense que reside na Austrália. Jornalista e desde sempre apaixonada pela escrita, é autora “Do lado de cá do mundo”, blog criado quando se mudou para a Austrália. A Maternidade despertou um amor ainda maior pela leitura e escrita. Depois de duas perdas gestacionais, Ana sente que tem como missão falar sobre essa dor tão solitária, sobre as inseguranças e luto dessas perdas e acalentar mães que, assim como ela, já passaram por esse momento tão difícil. Blog: Do lado de cá do mundo. Instagram: @anaapmaciel @doladodecadomundo

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