Se abrissem teu peito, o que encontrariam, pulsando vida?
No meu, encontrariam a minha filha
Ocupando tanto espaço que às vezes dói para respirar
Porque aperta, sufoca, anseia
Realizei o maior sonho da minha vida
Me tornei mãe
Assim como eu, que fui adotada, adotei minha filha
Me apaixonei perdidamente por ela, assim que a vi em uma foto
No primeiro dia que nossos olhos se encontraram a segurei em meus braços, senti seu calor, ela ainda não caminhava sozinha, então caminhei com ela no colo
Seis anos, três deles vivendo em um abrigo
Paralisia cerebral, microcefalia, deficiência física, intelectual e visual
Era ela, a minha filha, se tornou o maior amor da minha vida
Eu que sempre fui tão acelerada, fazendo mil coisas ao mesmo tempo, preenchendo todos os espaços, enchendo a vida de tudo, achei que seguiria assim
Cresci admirando minha mãe por isso, estudando, trabalhando à noite, batalhando por nós, acreditei que só se vivia se assim fosse
Defendi minha dissertação de mestrado com ela no meu colo
Assumi um cargo de coordenação
Entrei no doutorado
Pensei que seguiria dando conta de tudo
Não dei
Nossa única rede de apoio não era mais uma opção
Os sinais do burnout já estavam ali
Troquei de emprego, agora vai dar
Não deu
Aguentei por mais dois anos
Respira, vai dar tudo certo, a vida é assim
E uma previsão, que era nublada de um futuro distante, chegou se concretizando em um tufão
Trabalhando em um serviço de saúde mental, vi a minha saúde mental no limite da loucura
Burnout, depressão, ansiedade
Ideação
Medicação
E ouvir as palavras saindo da minha boca “eu só não acabo com tudo por causa dela”
Foi uma dor que nunca imaginei sentir
Como eu poderia estar doente, se estava realizando o meu maior sonho?
Todos os sinais já estavam acesos e piscantes
Larguei o emprego
Larguei o doutorado
Por mim
Por ela
Me cerquei de escrita, de livros e dela
Respirando devagar todos os dias, para poder respirar mais
Maternar me ensina todos os dias sobre limite
Os nossos
Limites que muitas vezes se colidem em desejos opostos
Mas, sobretudo, maternar me ensina sobre coragem
De levantar da cama todos os dias
De saber que nem tudo será bom
Mas fazer o possível para tentar
A maternidade romantizada não me contempla
A maternidade demonizada, também não
Eu fico no meio termo
Existe um meio termo?
Não pensei que precisaria abrir mão de tantas coisa que eu julgava essenciais para a minha vida
Aprendi ,depois de me tornar mãe, as prioridades mudam
Completamente
Rapidamente
Insanamente
E, por si só, não é uma loucura escolher ser mãe?
Abrir mão de um tanto de si para o outro?
E ainda lidar com a culpa que persegue por tudo que
Faço
Penso
Sinto
Enlouquecer na privação do sono
Enlouquecer porque dormiu demais
Enlouquecer na rotina
Enlouquecer no dia que tudo sai da rotina
Enlouquecer com a casa
Enlouquecer com a comida
Enlouquecer
Não é a toa que sempre canto para ela
Exagerado
Jogado aos teus pés
Eu sou mesmo exagerado
Adoro um amor inventado
[…]
E por você eu largo tudo
Carreira, dinheiro, canudo
Até nas coisas mais banais
Pra mim é tudo ou nunca mais…
A maternidade é enlouquecer por amar
Por se jogar
Por se arriscar
A viver uma vida que não é sua
E esperar que ela cresça
Para então sentir falta de tudo
E nessa loucura eu mergulho por inteira
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Autora: Drika Zimmermann / @drikazimmermann





