Há quem diga que, quando uma mulher dá à luz, nasce junto dela um sentimento de culpa. E que esse peso a acompanhará até o último suspiro.
Prefiro o ditado: “pata de galinha não mata pintinho”.
Falar sobre mãe é falar sobre uma identidade social construída historicamente, e ainda assim seguimos alimentando a fantasia de que mãe é sinônimo de santidade. Acreditamos em uma Virgem Maria que criou sozinha, padeceu glorificando a maternidade e foi exaltada por sua dor. Mas Maria era casada. Talvez porque no imaginário coletivo não importe o estado civil: mãe é sempre solo.
Ser mãe é estar sozinha em um mundo que exige demais e devolve quase nada. A culpa, essa velha conhecida, atravessa todas nós em diferentes disfarces. Pode ser sutil, violenta, institucional, estrutural. Em algumas, chega mascarada de conselho. Em outras, despida de empatia. O tribunal do cotidiano se instala nos corredores da escola, nas filas de supermercado, nas conversas banais, nos olhares atravessados. O nome próprio desaparece. Resta apenas “a mãe”.
A partir do momento em que um corpo feminino gesta, todo o resto deixa de importar. A história da concepção — estupro, paixão, descuido ou desejo — é irrelevante. Esse corpo passa a carregar o dever de gerar uma criança saudável, educá-la, alimentá-la, devolvê-la ao mundo pronta para cumprir a tarefa final da existência: trabalhar. Se algo sair do esperado, a sentença já está dada. A culpa é da mãe.
Se há mais uma criança no mundo, foi descuido. Se ela trabalha e coloca o bebê na creche, é negligente. Se não trabalha, é preguiçosa. Se a criança morde o coleguinha, foi falta de afeto. Se come mal, é descuido. Se está acima do peso, é desleixo. Se está doente, é desatenção. Se morre, é culpa dela por não ter cuidado direito.
E o pai? O pai é ausência silenciosa. O pai é desculpado pela sociedade, canonizado pelo mínimo, aplaudido por existir. O pai descansa, bebe, trai. O pai não é cobrado, não é julgado, não é responsabilizado.
Vivemos em cidades, não em comunidades. Ainda assim, insistem em dizer que “criança se cria em coletivo”. Qual coletivo? A favela atravessada por balas? A escola com professores exaustos e turmas lotadas? A rua que violenta? A internet que adultiza? A sociedade que aponta, cobra e abandona? A verdade é que o coletivo se desfez e, quando ele falha, tudo recai sobre a mesma mulher.
Até o corpo dela é transformado em argumento. Se é magra, é vaidosa demais. Se é gorda, não tem cuidado. Se amamenta, exagera. Se não amamenta, é negligente. Se goza, é promíscua. Se não goza, é frustrada. Se envelhece, fracassou. Se se cuida, é fútil. O corpo da mulher nunca pertence a ela. E seu papel materno nunca é suficientemente bom.
A violência estrutural se disfarça em frases banais. A sociedade não perdoa a mulher que escolhe. E menos ainda a que erra.
No fim, a vida de uma mãe é profundamente solitária. Falta colo. Falta escuta. Falta pausa. Falta tempo até para o próprio corpo, para o próprio nome. Falta o direito de existir para além da função que a define.
Talvez por isso ainda prefira o ditado: “pata de galinha não mata pintinho”.
Porque a maternidade não deveria ser culpa. Deveria ser existência. Deveria ser liberdade. Deveria ser apenas isso: ser mãe — do jeito que dá, do jeito que pode, com o que tem.
Por Deyse Lima – @escritoradeyseluiza





