Via Láctea, via intravenosa

img 7045 viviane gueller

Estas escrevivências são parte de uma imersão no universo doméstico e acadêmico, enquanto tentava escrever minha tese durante o isolamento imposto pela Covid-19, e após um diagnóstico de câncer de mama, quando precisei me dedicar a um tratamento longo e desafiador rumo à cura.

As dimensões plurais da vida estratificadas ideologicamente passaram a perder suas fronteiras – a maternidade, os cuidados de si para cuidar do outro, os cuidados com a casa e a saúde, com o trabalho de mulher-mãe-artista-pesquisadora-etc, revelaram-se como frágeis tramas que tecem o mesmo solo cotidiano, onde todos os planos da vida se desdobram simultaneamente.

Stela não havia completado seis meses de idade quando saímos do Brasil para Portugal para o período de meu doutorado sanduíche, e as dificuldades não foram poucas para conciliar trabalho acadêmico com trabalho materno e o puerpério que se estendia. Morávamos entre os bairros de Belém e Ajuda. Aproveitávamos os dias de sol e pouco frio para caminhar ao longo do passeio que margeava o Tejo.

Neste percurso, havia uma marina. Ao parar para observar as embarcações ancoradas, vimos junto à borda do calçamento várias águas-vivas. Ficamos ali contemplando seus movimentos, absortos pelos corpos gelatinosos e translúcidos misturados à própria consistência da água. Um dos seres mais antigos do planeta, elas já estavam vagando por aqui milhões de anos antes da existência humana, iguais como sempre foram desde sua origem. Ao nos confrontarmos com criaturas tão resistentes, o tempo abrandava-se.

Nos meses finais de nossa estadia em Portugal, conhecemos a Sala Aberta, um projeto educativo de integração social de crianças entre zero e quatro anos que não frequentam instituições para a infância. Um projeto de playgroups gratuito que investe no acolhimento e cuidado das famílias com filhos na primeira infância.

Na Sala Aberta, vislumbrávamos a importância da conexão com a natureza ao promover a exploração como forma de autoconhecimento, autonomia e prazer. Durante as sessões, conversávamos, ríamos e chorávamos com nossas angústias, medos e alegrias. Quando retornamos ao Brasil, senti muita falta dos encontros e das partilhas. No início do período da pandemia, foram as conversas remotas e trocas com o grupo da Sala Aberta que me auxiliaram a propiciar um ambiente lúdico domiciliar para a minha filha.

Logo nas primeiras semanas de quarentena, a redução drástica de pessoas circulando nas ruas resultou em uma diminuição da poluição atmosférica detectada por satélites em várias regiões do mundo. Além da emissão de poluentes, observava-se o impacto das ações humanas na dinâmica do meio ambiente, animais surgiam e ocupavam as cidades.

Quando a quarentena já avançava para um período maior do que o indicado pelo significado literal da palavra, a camada espessa de poluição no horizonte das cidades havia desaparecido também a olho nu; a cada dia era possível observar melhor o céu. Nossa família passou a frequentar o terraço do prédio, onde num final de tarde nos deparamos com a lua crescente posicionada logo acima de Vênus em um equilíbrio perfeito, algo que parecia um tanto paradoxal naquele cotidiano de isolamento. Dias depois, lá estava ela consideravelmente diferente, quase uma meia-lua bem à direita de Vênus: o alinhamento dissipara-se.

No terraço, observávamos também o movimento dos papagaios que apenas ouvíamos em nossa casa. Eles elegiam as antenas para esperar o ocaso, e então buscar um lugar para dormir. O voo era feito em pares ou trios alardeando o céu com sua presença tão verde e sonora até, de repente, mergulharem em silêncio — ficávamos a imaginar o que aconteceria a seguir quando saíssem de cena. Mas não sabíamos, nem saberíamos, o enquadramento do céu desde o terraço não nos permitia acompanhar sua jornada.

Abro minha janela e ouço o canto das cigarras, um dia quente em Porto Alegre, outra vez as restrições de circulação por conta do aumento vertiginoso da Covid-19. Vou para rua apenas para rápidas saídas. Aquele exercício de circular vagarosamente e ser tocada pelas surpresas do caminho, impregnando-me pelas imagens, deixando-me manchar pelo mundo, é um horizonte interdito. Um final de percurso que se dá em um momento totalmente instável em escala planetária, ao qual chego tendo feito a travessia dos primeiros anos de ser mãe e de uma residência no exterior, buscando tocar e vislumbrar em toda a sua simplicidade uma síntese entre arte e vida cotidiana.

Ouço agora outros sons da cidade entremeados ao soprar do vento, o canto dos pássaros, as ambulâncias, o motor de automóveis. Olho à minha direita e vejo as folhas movendo-se vagarosamente, vislumbro as sementes que a elas deram origem, um canal entre terra e água. Lembro-me destas mesmas árvores, sentada na cadeira de balanço junto de Stela em seus primeiros meses de vida, avistadas de frente à luz oblíqua do inverno quando eram apenas troncos e galhos; caducifólia, as áceres começam a perder suas folhas no outono. Penso em como encerrar, alcançando um fim que nunca é o mesmo — a cada vez que se chega nele, já se revela outro.

Este foi um dos períodos mais longos da minha vida até hoje, mais que puerpério, mais que pandemia, mais que a escrita da tese, mais que. Uma travessia recém encerrava-se, e já dava lugar a outra. Conheci mulheres incríveis, Betina, Julia, Camila, Carol, Tati, Raynara, outra Carol, Monica e um homem que na primeira vez que nos encontramos me desenhou uma escada.

Então, finalmente, o ano virou, essa métrica inventada pela humanidade que dentro de nós não funciona exatamente assim. Eu gosto de chorar. Antes de as lágrimas caírem, elas dão uma voltinha no olho e levam tudo de ruim junto.

Não faz muito tempo vi despontar, um a um, teus dentes de leite. Hoje à tarde, o primeiro deles caiu. Teus dedinhos curtindo uma sensação estranha nessa dádiva de poder inaugurar-se constantemente. Tua alegria é também minha, infância que revivo em teus olhos oceânicos.

“Agora não consigo parar de colocar meu dedo no buraco do dente”, conta Stela para o seu dindo. A presença de uma ausência ao alcance das mãos. Hoje à noite, vem a fada do dente — são muitos os preparos, desenhos, cores, recortes. Um ritual de espera que remete a outros tantos desde que você chegou em nossas vidas.

Fecho os olhos e me revejo na casa da minha infância acomodando um dentinho na cama, o sono a chegar lentamente. Tento driblá-lo, quero ver a fada do dente, e te ouço: “Como ela faz pra levantar o travesseiro?”

Por Viviane Gueller – @vivianegueller

Deixe um comentário

Rolar para cima
0

Subtotal