Atravessamentos de uma maternidade já antes atravessada: da segunda vez é mais fácil se reencontrar

11092025 img 5641 2 luísa chaves

A chegada daquele novo ser atravessou-me o corpo. Embriagou-me naquela névoa já conhecida e deixou-me mergulhada ali, inebriada, por aquelas horas. Mas, depois, fim. Voltei a mim antes que me desse conta. Foi mais fácil me reencontrar dessa vez. Senti sua chegada arrancando-se de mim com tamanha veemência de quem sabe onde quer ir e o que precisa fazer para chegar. Estava pronto ali. Ele queria sair, eu vi. Eu queria também. E já sabíamos como fazer isso acontecer, nós dois. O irmão em casa, a casa, a vida urgiam para que eu retornasse o quanto antes. Saí do transe do parto quase antes de perceber que havia entrado, mesmo que, dessa vez, tivesse durado mais tempo. Mesmo que, dessa vez, eu até esperasse mais. Dessa vez, já não me atravessou tanto assim. Dessa vez, tudo estava mais fácil, de certa forma. Eu havia me perdido menos ali.

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Me perder menos, à primeira vista, dizendo assim, parece uma vitória — e acho que, de fato, é — mas a verdade é que não sei, no mundo-mulher-mãe em que vivemos, com tantas tarefas sobrepostas e facetas sobrecarregadas, se é bom ou ruim se perder menos, afinal. A lucidez de não estar perdida na maternidade e me sentir mais presente em mim mesma me tranquiliza, mas o deleite de estar levemente perdida, embriagada em um repouso que só a maternidade em alguns momentos, como o do parto, traz, fez-me falta. Se perder, afinal, é se jogar na brisa da vida, e hei de confessar que existe um quê de deleite nisso. Senti saudades da partolândia de anos atrás e do quanto a gente fica bem quando está ali, mas, afinal, como mergulhar no mar do desvario se um filho te espera e, junto dele, agora também outro e todas as tarefas (agora você já sabe) que virão? Se fosse para escolher entre a ingenuidade encantada e leve do primeiro parto e a maturidade lúcida e firme do segundo, não sei responder. Mas, com certeza, cada uma tem suas vantagens. Ao atravessar o primeiro parto, descobri a versão “mãe”, que é uma mágica, e também louca e exausta, versão de mim e nela um tanto me perdi. Com o passar do tempo, no entanto, o filho cresceu, o corpo voltou para mim e me reencontrei, a ponto de que, no segundo parto, já não mais deixei de existir.

Contando assim, a segunda vez parece que tem um bocado menos de poesia. Mas, na verdade, não. O que ocorreu é que a poesia acho que se reescreveu em mim. Como texto que vai para revisão ou que é encontrado na gaveta, reavaliado e reescrito após uns anos, a segunda maternidade tem sido assim: uma reescrita de um texto antigo por novos olhos já mais vividos — olhos que já passaram antes por ali e contam de um outro jeito, então, o que agora já se sabe ver. Não é que haja menos poesia, é que a poesia agora é outra, de um tom mais lapidado, escrita à caneta e não a lápis, depois de ter atravessado o tempo e todos os seus cansaços, bem como seus ensinamentos. É uma nova história. Nunca mais aquela inédita, nunca mais aquela primeira — essa a gente não vive nunca mais. Agora, uma nova história, fruto de sabedoria. Uma história em que a poesia convive com a realidade, em que a maternidade convive melhor com a identidade. Talvez, com isso, a poesia se torne menos emocionada, mas é, sem dúvida, mais equilibrada.

Quando a árvore é mais vivida, tendo dado algumas primaveras já, ela sabe mais dos ritmos, das fases, do tempo e de como todas as coisas nela vêm e vão. Com a mãe, parece ser igual. As angústias do passado já não te atravessam tanto mais — pois você já sabe, um pouco, o que virá, e sabe também que isso, mesmo em árduas noites, passará. Sabe que, ao ser mãe, você provavelmente vai se perder, mas depois consegue retornar. Há, nas revivências, uma nova satisfação: você agora sabe que, independente do que aconteça, você consegue atravessar, e passa a se carregar mais junto de si em sua maternidade, atravessando, mais fortalecida, cada instante.

Por Luísa Chaves @__luisachaves

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