Ser mãe em tempos de: Letramento e tecnologias de Gênero

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Sempre me considerei feminista, no sentido de compreender que temos direitos iguais, podemos exercer quaisquer profissões que queiramos, temos o direito de escolher ser ou não mães, e por aí vai. O tempo passa e a gente vai aprendendo muito mais coisas, e compreendi, sendo mãe de duas meninas, que feminismo vai muito além deste discurso superficial.

Por ingenuidade minha, ou falta de conhecimento mesmo, acreditava que bastava defender nossos direitos, mas tenho compreendido que se tornar humano e mulher são movimentos individuais, claro, mas também, e essencialmente, socioculturais muito mais amplos, profundos e de discussão urgente, se quisermos realmente transformar nossa realidade. Eu sei, estou chegando tarde nesta discussão, mas, entenda, nasci em 1967, vivenciei a objetificação da mulher ao longo dos anos de 1970, me tornei profissional no início de nossa reabertura democrática na década de 1980 e entrei no século XXI imaginando que o que eu chamava de feminismo era suficiente. Mas não era.

Como explica Zanello (2022) no livro “Prateleira do Amor”, a leitura dos corpos masculinos e femininos, colocando a diferença sexual biológica como essencial e estrutural, justificando a distribuição dos espaços públicos e privados e das funções de cada um era, para mim, natural ou naturalizada. Assim como a performance que eu aprendi como sendo feminina ou da mulher, nunca me pareceu performance, mas a trilha por onde deve caminhar um ser humano que, eventualmente, nasceu do sexo feminino. Estas performances ensinadas e aprendidas eram a “realidade”.

Mais ainda, cresci em uma década onde a televisão era o único meio de comunicação amplamente presente nos lares e que, na época, era fator de reunião da família em torno de programas. Os enredos, os romances hollywoodianos que eu consumia nas “sessões da tarde”, e os romances impressos, além dos desenhos animados. Todo um conjunto de elementos que Zanello (2022) chama de tecnologias de gênero: “produtos culturais que retrataram e construíram os valores, estereótipos, performances e emocionalidades de gênero”, que constituíram a pedagogia em que fui criada.

Hoje, vejo diversas postagens de meninas jovens no Instagram, sejam conhecidas ou não, fazendo caras e bocas, expondo seus corpos (aparentemente) sem vergonha alguma, e aquela voz dentro da minha cabeça, ainda enraizada e educada nestas tecnologias de gênero, imagens construídas ao longo de uma vida, sussurra palavras: parece demais isso! O que as pessoas vão pensar? Piranha, perdida, essa pessoa não se dá ao respeito! Estas palavras escapam da mente vindas de um lugar que foi social e culturalmente cultivado com cuidado, não por mim, necessariamente, mas pelo contexto em que nasci e cresci.

Saia curta, cabelos soltos, aquela risada um pouco mais alta e debochada, um jeito de andar e tantos outros gestos e atitudes que despertam esse lugar que, embora nem sempre seja percebido, faz parte de mim. Somos estimuladas, condicionadas a julgar pela aparência de acordo com os velhos estereótipos que pulam na nossa frente como moscas, sem que pensemos sobre isso, normalizando pensamentos, julgamentos e atitudes que reverberam em nós mesmas e em nossa autoestima.

Cadê a sororidade? A compaixão? A solidariedade?

Tenho aprendido que não sou a única e me sinto pasma em descobrir, cada vez mais, como tudo está intrinsecamente impregnado em nossa educação, na ausência de letramento sobre gênero e, mais ainda, nas tecnologias de gênero que consumimos. Não, não estou plenamente à vontade com estes termos, tenho aprendido a partir de leituras recentes (pois é, antes tarde do que nunca), mas que têm me feito refletir em tudo o que reproduzi junto às minhas filhas em sua educação e poderia não ter feito se estivesse mais e melhor esclarecida.

Essa objetificação sexual, que é sim uma violência contra a mulher, pois a destitui de sua integralidade como ser humano, reduzindo-a a bundas e peitos, pressupõe a transformação destas em coisas ou pedaços de coisas. Neste sentido, urge o pensar sobre a linguagem (o que vem acontecendo) e sobre todas as falas consideradas corriqueiras que reforçam tanto esta objetificação (incluindo aqui letras de músicas) quanto a percepção equivocada do que é ser mulher.

Para entender melhor, letramento de gênero é o processo de estudar, aprender e compreender de que forma o gênero e suas acepções influenciam a sociedade, a cultura e nossas estruturas sociais. Trata de pensar sobre os estereótipos, desigualdades, linguagem aplicada, desconstruindo ideias pré-concebidas, abarcando e despertando para uma visão mais diversa, inclusiva, crítica e equitativa, o que contribui para nosso pensar, agir e mudar sobre questões de gênero, raça, classe e sexualidade. Eu estou tendo a oportunidade de estudar e pensar sobre letramento de gênero agora, nesta fase de minha vida.

Quando se trata de mães, então, a coisa fica mais pesada. Minha geração foi criada brincando de boneca, Susi, panelinhas, casinha e tudo o que se relacionava ao que uma menina deveria gostar em sua infância, como se ser mãe fosse algo a ser treinado e um lugar onde não há escolha. Nunca tive sequer uma conversa, nem pública e nem privada, onde houvesse a dúvida ou a possibilidade de escolher não ser mãe.

Hoje, compreendo a necessidade de desconstruir o que aprendemos sobre este ser e estar no mundo, como mulher, em primeiro lugar e, eventualmente, como mãe, se for essa a escolha a ser feita.

Precisamos ler, aprender e nos instruir para que não levemos as nossas filhas e filhos a se encaixarem em trilhas tão estreitas que não comportem a diversidade feminina, masculina e, muito menos, a humana. Não há fórmula, há o desejo genuíno e ativo de fazer diferente. Algo que diz respeito a nós mesmas e àquilo que carregamos em nossas falas.

Ao olhar para trás, desde a gravidez ao parto, na infância de minhas filhas e ao longo de seu crescimento, são adultas hoje, eu me sinto no desconforto de ter repetido muitos destes estereótipos, palavras, frases e até pensamentos. Hoje, me atrevo a pensar diferente, conversar com elas sobre estes aspectos e aprender com elas. Aprendo muito com cada uma delas em suas formas próprias de serem e pensarem, mas me pego desejando fazer mais, muito mais.

A verdadeira transformação está no falar, compartilhar, questionar e, fundamentalmente, enfrentar com coragem o fato de que sou uma mulher e mãe em processo de desconstrução. Acho que ainda dá tempo, acredito que ainda posso contribuir para que as mulheres à minha volta percebam que nós mesmas construímos e continuamos mantendo as grades que nos impedem de voar. Sem pensar, sem perceber, sem se dar conta da necessidade de uma profunda revisão de ideias e comportamentos. Peço perdão, filhas, pela demora no despertar.

É urgente esse exercício individual para uma sociedade onde os caminhos se transformem em estradas onde caiba toda a diversidade feminina e humana.

Por Nanci Maziero Trevisan – @nanci.trevisan

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