Eu olho pra você e você é uma menina. E me dá vontade de chorar um pouquinho e de voltar lá, viver aquilo mais uma vez — junto de você. Vontade de te segurar no colo, quando colo é tudo o que você é.
Eu olho pra você e você foi eu. Entre nós, um cordão, uma linha que confunde o tempo e costura os afetos.
Te vejo e você é duas. Uma menina no corpo e outra nos braços. As duas recém-chegadas, descobrindo o mundo, as cores, a vida.
Daqui posso sentir o cheiro de leite; lembrar das dores agudas, do peito sangrando, dos pontos cicatrizando, dos cansaços sem fim… do corpo sendo corpo, sendo corpo, sendo corpo; corpo seu e corpo dela, que mal sabia que não era parte de você — porque, afinal, era, ainda. Do corpo que era leite que fazia corpo e dobrinhas. Do corpo que era peito, que era tudo.
Lembro da entrega, que parecia ser tudo o que você tinha pra dar e ser. Tenho comigo até as lembranças das vivências só suas, acho…
Da ponta de cá do cordão, eu olho no espelho e aqueles olhos ainda são seus. E é com eles que vejo, ao meu lado, a minha menina — a nossa — que fabricamos e parimos. No agora, ela já quase me alcança: na altura, na meninice, na mulher.
Me pergunto se algum dia ela escolherá, como nós, passar pela experiência visceral que é ser mãe; se ela vai escolher ser bicho, se expandir e ser plural. Se sim, me pergunto o quão perto ela vai me querer nessa hora, se terei a honra de testemunhar o terremoto que ela pode encontrar.
Imagino também o quão longe estarei, então, daquela outra menina que fui quando nós duas (três) éramos uma só. E se você virá ao meu resgate quando a tempestade não for completamente minha. Se virá me trazer o frescor que só você respira, sentindo nos braços o peso e o sabor daqueles primeiros dias.
Me pergunto e te pergunto…
Eu tento te avisar que o tempo vai passar rápido, mas você não me escuta. E quando, sem querer, me responde, os onze (ou quarenta?) anos de distância abafam demais o volume. Não dá pra te avisar. E eu avisaria o quê?
Não dá pra contar o quanto você será transformada, o quanto crescerá, o quanto chorará ou o quanto amará. Eu não te conto, mas, de alguma forma, você já sabe — só na superfície, talvez, mas sabe. E porque você sabe, te vejo viver aquilo por inteiro: no corpo, na alma, no corpo… tanto corpo, dois corpos, três, um corpo só.
A memória engana e talvez daqui eu veja só o que pôde ficar guardado em mim.
Me enrosco nas lembranças e não sei se os nós daqueles dias, tão atuais, foram dados há onze anos ou se vêm sendo constantemente tecidos pela nossa história — desde sempre — tricotando em imagens bonitas o que foi, antes um grande emaranhado.
Penso que o tempo, com suas mãos artesãs, faz desenhos com o que foi nosso caminhar. Tenho, agora, vontade de te agradecer. Sua (nossa?) meninice coloriu as vivências e, mesmo nos dias mais escuros, nos agarramos na barra do amor e no desejo por um vínculo bonito, em que nós fôssemos (ainda e sempre) ponto e cruz, colo e laço.
Você era, sim, uma menina e também uma mulher inteira. E duas e três. Da partilha e da cisão, nos alinhavamos. Tecemos experiências, adultecemos caminhando lado a lado, dentro e fora, juntas.
E só aqui me dou conta: você sou eu. E ela. Ambas, num conjunto que abraça o passado e suas histórias, enquanto abre a porta pra um futuro em que as meninices seguirão bordando belezas pelo caminho — o meu, o seu e o da nossa menina.
Por Gabriela Ramalho Passerini – @queridoscuriosos





