Quando a mãe sofre em silêncio: Reflexões para Setembro Amarelo

Jose A Thompson VeeZz9sUaic Unsplash

Nem sempre dá para perceber quando uma mãe está sofrendo. Por fora, ela parece estar
dando conta: amamenta, cuida do bebê, responde às mensagens, sorri para as visitas.
Mas, por dentro, pode estar se sentindo sobrecarregada, triste, ansiosa ou até com a
sensação de que não vai conseguir seguir em frente.

Setembro Amarelo é um convite para falar sobre essas dores que muitas vezes ficam
escondidas. É um lembrete de que a saúde mental materna precisa ser levada a sério,
não só para o bem da mãe, mas de toda a família.

A maternidade é um período de muitas transformações. O corpo muda, a rotina vira de
cabeça para baixo e, de repente, existe um ser totalmente dependente de nós. Junto com
o amor e a alegria, vêm também o cansaço, as dúvidas, o medo e a culpa. É normal
sentir tudo isso. Mas quando o sofrimento passa do limite e começa a impedir a mãe de
cuidar de si e do bebê, é preciso atenção.

Estima-se que 1 em cada 5 mulheres possa ter algum transtorno mental na gestação ou
no pós-parto. Depressão, ansiedade, crises de pânico, pensamentos invasivos e até
quadros mais graves podem aparecer nesse período. O problema é que muitas não falam
sobre o que estão sentindo, seja por medo de julgamento ou por acharem que “vai
passar”.

Esse silêncio é perigoso. O sofrimento não tratado pode afetar o vínculo com o bebê, a
relação com o parceiro ou parceira e até a própria vida da mulher. É por isso que
familiares, amigos e profissionais de saúde precisam estar atentos aos sinais de alerta.
Alguns deles são:


● Choro frequente ou sensação de tristeza que não melhora com o tempo.
● Irritabilidade constante ou explosões de raiva.
● Falta de energia ou de vontade para realizar tarefas simples do dia a dia.
● Isolamento, recusa de visitas ou de interações sociais.
● Preocupações ou medos excessivos e persistentes.
● Sentimentos de culpa intensa, inadequação ou incapacidade de cuidar do bebê.
● Pensamentos de que o bebê ou ela própria estariam melhor se não existissem.

Esses sinais não significam que a mãe está “falhando”, significam que ela precisa de
ajuda. E quanto mais cedo essa ajuda chega, mais rápido e eficaz é o processo de
recuperação.

No meu trabalho com gestantes e puérperas, vejo como uma pergunta pode abrir
caminhos: “como você está de verdade?” Muitas mulheres se emocionam só de poder
falar sem serem interrompidas ou julgadas. Esse espaço de escuta é o primeiro passo
para que elas busquem apoio psicológico, entrem em grupos de acolhimento e, se
necessário, recebam acompanhamento psiquiátrico.
Mas não é só sobre a mãe individualmente. Questões, como falta de rede de apoio,
sobrecarga doméstica, violência e desigualdade de gênero aumentam o risco de

sofrimento emocional. Falar de saúde mental materna também é falar de políticas
públicas, licença parental, grupos de apoio e acesso a tratamento psicológico e
psiquiátrico quando necessário.
Neste Setembro Amarelo, o convite é claro: precisamos quebrar o silêncio em torno do
sofrimento materno. Precisamos oferecer acolhimento, tratamento e suporte sem
julgamento. Cuidar da mãe é cuidar da vida.

Autor

  • Paula Alves

    Paula Alves é psicóloga de gestantes - CRP04/31469, mãe da Maria Cecília e é especialista em Psicologia Perinatal e da Parentalidade, com mais de 15 anos de experiência. Atua no acompanhamento psicológico de gestantes e mães no pós-parto, além de ser docente em um curso de formação de doulas. Acredita que maternar não deve ser sinônimo de solidão e que falar sobre saúde mental materna é fundamental. No Instagram, compartilha reflexões e conteúdos sobre o tema: [@paula.psiperinatal].

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