Não há nada mais sagrado que uma mulher

não há nada mais sagrado que uma mulher

No dia em que descobri que estava grávida, meu coração explodiu de alegria dentro do peito. Era um sonho se realizando, e não pude conter minha emoção, então chorei. Um choro bom, o mesmo choro que derramei no dia em que você nasceu e te peguei nos braços pela primeira vez.

Antes mesmo da confirmação médica, algo em mim já dizia que você seria uma menina, e isso me fez duplamente feliz. Não há nada no mundo mais sagrado que uma mulher.

Não há nada mais sagrado que uma mulher, e saber disso me trouxe uma angústia que carregarei comigo enquanto eu existir. A angústia de saber que alguém pode te profanar.

Você mal aprendeu a falar, ainda era uma criança de colo, e precisei te ensinar que ninguém pode tocar nas suas partes íntimas; que, se isso acontecer, você precisa contar para seus pais ou para alguém que confie e que esteja por perto. Ter que explicar essas coisas para uma pessoa tão pequena é dilacerante.

Quando te falei que existem pessoas más, você me olhou com seus olhinhos de jabuticaba, um olhar de total incompreensão sobre aquilo que eu estava dizendo. Sua pureza de criança não te permite entender a maldade humana, e me corta a alma ter que arrancá-la dessa inocência para que saiba se defender.

Você nasceu mulher e precisará se defender muitas vezes. Como eu precisei e não soube me defender. Como eu nem sequer me dei conta da violência que sofri. Mais de uma vez. Nos locais mais insuspeitos, como uma igreja, uma escola ou a casa de um amigo.

Você ainda é uma criança, e às vezes eu choro escondido vendo um filme ou apenas olhando para você. Porque sei que, mesmo forte, você é vulnerável. Porque sei que, mesmo que eu tente te proteger de tudo de ruim, não serei capaz, porque também sou vulnerável.

Tantas histórias de crianças abusadas dentro da própria casa ou na casa de conhecidos me fazem te impedir de ficar sozinha na casa de uma amiga ou de dormir na casa de alguém.

Tantas histórias de adolescentes que vão a uma festinha se divertir e acabam violentadas me fazem pensar em como vou reagir quando você pedir para ir a uma festa pela primeira vez.

Tantas histórias de amigas que querem se separar do marido ou do namorado e têm medo de apanhar ou de morrer me deixam preocupada com seus futuros relacionamentos amorosos.

Uma mulher livre é algo que não existe. Mesmo uma mulher difícil é de morte fácil.

Você não vai poder usar sempre a roupa que quiser, andar sozinha de noite onde estiver, beber o quanto quiser sem se sentir insegura.

A violência não acontece só no ato físico. Ela acontece todas as vezes que uma mulher entra num carro de aplicativo e tem que fingir que está falando ao telefone com o pai ou o marido para se sentir mais segura. Acontece todas as vezes que, no caminho de casa, a chave é segurada com força entre os dedos para ser usada como arma contra um possível agressor.

Mas não quero mais falar sobre isso, minha filha, porque isso me deixa triste, e nós queremos ser felizes.

Não há nada mais sagrado que uma mulher; por isso, te louvo e te agradeço por ser minha companheira nessa jornada chamada vida.


Por Francine Cruz – @francinecruzescritora

Revisão: Bibianne Terra

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