Porto Alegre, terça-feira, três horas da tarde. Acabo de sair de um exame daqueles chatinhos, que exigem um jejum interminável. A fome já está no nível do desespero. Mantive minha dignidade ao decidir que o biscoitinho água e sal oferecido pela recepcionista não seria minha primeira refeição do dia. Afinal, todo mundo diz que a proteína é item obrigatório para quem quer manter o shape e segurar os músculos que insistem em despencar. A vida da mulher 40+ tem dessas coisas. Tudo o que for útil para segurar e fazer subir, eu tô fazendo.
Entro em um shopping próximo à clínica e vou em busca de uma carne e uma saladinha. Quase tudo está fechado, exceto as lojas de fast-food. A cidade, apesar de ser uma capital, mantém um “quê” de sossego interiorano. Acho bacana isso de o comércio fechar ao meio-dia, exceto quando estou com fome, como era o caso.
Sigo caminhando pelos corredores até encontrar um restaurante uruguaio, bem arrumadinho, que prometia uma experiência gastronômica ímpar. Entrei pensando: “Bora lá! Quero ver se são tudo isso mesmo!”. Acomodo-me em uma mesinha para dois, que será ocupada só por mim. Não só, é modo de dizer. Era eu, a minha fome, e nada nem ninguém fazia falta ali.
Eis que o garçom, um senhor cordial de meia-idade, se aproxima e pergunta se quero pedir alguma coisa enquanto aguardo. Ele já presume que estou esperando alguém. E eu respondo:
— Não estou esperando ninguém. Quem espera por mim é a minha fome, e ela está impaciente. Poderia me trazer o cardápio, por favor?
Ele dá um sorrisinho meio desconcertado. Deve ter pensado: “Pobre mulher, sozinha, fazendo uma refeição como essa, num lugar como esse…”. E eu, dizendo a mim mesma: “Que maravilha mastigar sem precisar falar com ninguém, nem deliberar sobre o que comer com o marido, nem ter que cortar a carne ou servir as crianças, nem comer em uma toalha suja de suco derramado. Só eu, meu prato, meus pensamentos e meu estômago, com sua urgência urgentíssima de comer bem”.
(Será que, a essa altura da história, alguém aqui já consegue me entender?)
Bem, enquanto espero a comida, olho para o cara que chega e se senta sozinho à mesa ao lado. Ele recebe o cardápio sem nenhum comentário ou nota de rodapé. Ele é homem, logo se basta. Eu sou mulher, sou incompleta por essência. Cadê a minha outra metade?
Também fico pensando que ninguém estranha uma mulher sozinha na padaria, no rodízio de pizza ou no self-service por quilo. Aí é aceitável, porque é rápido, prático, algo necessário dentro da rotina corrida. Mas pedir um prato com nome difícil, sentar-se a uma mesa com toalha de verdade ou pedir uma taça de vinho para acompanhar? Isso é ousadia demais para quem deseja ocupar espaços e sentir prazeres sem escolta. E, se for jantar, então? Aí é que o repertório de estereótipos cresce, e logo pensam: “Aposto que não faz depilação, mora com um monte de gatos e chora ouvindo Adele no shuffle”.
Meu prato finalmente chega: um suculento assado uruguaio, bem malpassado, um prato de folhas verdes e um refrigerante zero, porque é sempre bom equilibrar as coisas. Degusto vagarosamente aquela carne, mastigando cada resquício de patriarcado e machismo com que já me deparei ao longo da vida. Depois, ainda peço um milhojas bem carregado de doce de leite, apreciando, a cada colherada, o prazer de ser uma mulher livre, independente e capaz de pagar as próprias contas. Por fim, tiro o cartão da bolsa e pago a conta com o sorriso de alguém que é dona do próprio nariz, do próprio tempo e dos próprios quereres.
Saio pensando em quantas experiências deixamos de viver e quantos lugares deixamos de frequentar apenas porque não tínhamos companhia. Quantos restaurantes ficaram só nos planos. Quantas viagens foram guardadas como sonhos adiados.
Então, vou deixar aqui minha opinião sincera: aprecie sua própria companhia. Marque um encontro com você mesma. Faça tudo o que deseja fazer sem precisar de ninguém para validar seu prazer ou legitimar sua experiência. Permita-se esses momentos de prazer solo. Vista-se sem autocensura, do jeito que faz você se sentir bem. Escolha um lugar legal. Sente-se em um café ou em um bom restaurante. Peça o que tiver vontade. Coma devagar, sem culpa, com presença e atenção. Saboreie. E isso não é só sobre comida, como quase nada nesta vida é só sobre o que parece ser.
Escrito por: Juliane Callegaro Borsa | @soul.julianeborsa
Revisão: Bibianne Terra





