Acorda, Alice

Fiquei pensando se vai dar tempo, pois só me restam vinte e quatro horas. Fui ler, de novo, as orientações, e vi que, se eu me dedicar, vai dar tempo, sim. Mas eu, com essa mania de me autosabotar, fui fazer outra coisa, como procurar na cozinha algo pra colocar no lugar ou  checar se eu tinha tirado a roupa da máquina de lavar, meu único luxo nessa vida suburbana.

Sim, porque ter uma máquina de lavar em casa, e apertar os botões, colocar o sabão e ter tempo livre pra fazer outras coisas na casa ou na vida é luxo, sim! Porque como pode uma mulher que é mãe cuidar da casa, trabalhar fora (não é o meu caso, mas já foi), estudar, se cuidar, pegar ônibus na hora certa, deixar criança  na escola e ainda ter que lavar roupa à mão?

Uma das muitas coisas que nunca gostei de fazer na vida era me agarrar com um monte de roupa suja, jogar numa bacia, colocar água, sabão e esfregar. Depois, deixar tudo de molho, voltar pra cozinha e ter que enfrentar o calor do fogão. E, depois, retornar para aquela bacia, que parecia me dizer: “Vem me torcer todinha!”. Eu nunca consegui encarar isso com conformismo, não! E, sim, fico pensando quando ouço alguém dizer: “Eu prefiro lavar ’na mão’ essas roupas mais levinhas, sabe? Ou, então, pérolas como: “Eu não confio em máquina de lavar, pra mim não sai a sujeira toda!”.

Eu vou me casar ou abrir sociedade com a roupa suja, minha senhora? Pra eu ter que confiar na máquina? Agora, sim, eu concordo quando alguém diz: “Eu não confio nem na roupa que eu visto!”. Isso, sim, faz sentido pra mim. Principalmente quando a gente insiste em comprá-las em lugares duvidosos, e de tecidos mais duvidosos ainda. Agora, por que eu preciso estabelecer confiança com uma máquina de lavar?

O que eu preciso mesmo é estabelecer isso comigo mesma: confiar no potencial que eu tenho. Me agarrar a ele, pegar papel e lápis e jogar lá tudo que está contido em mim. Mas isso é papo pra terapia.

Mas o que vejo no momento é só a pia e, o pior, cheia de louça! Sim, porque, enquanto eu pensava se ia escrever, o meu filho, que já não é tão menino assim, a encheu. E deixou lá tudo o que tava no quarto dele havia dias.

Talvez seja melhor eu começar…

A lavar a louça? Não, a escrever.

O texto? Não, a minha história.

Sim, porque os filhos vão crescer, e a pia nunca vai ficar sem nada. Porque, assim como na vida, a pia sempre vai ter demanda. Ou melhor, prato, copo, garfo, copo de liquidificador…

Eu vou começar a escrever e a confiar em mim. Quem sabe o que faz sentido pra mim, faça sentido pra outras também. Porque temos diferenças, mas temos tanto em comum! Não só a vida cotidiana, que acorda antes da gente e diz: “Vem, mulher, tá na hora! Levanta! Vem fazer café, almoço, levar e buscar as crianças na escola…” mas também os sonhos, que, muitas vezes, são interrompidos durante a noite, quando precisamos levantar pra pegar a criança chorando, ou durante o dia, quando temos de “parar de sonhar acordada” pra não perder o ônibus lotado.

“Acorda Alice!”, já disseram isso pra mim. Mas não acordei, porque meu nome não é Alice. Eu continuei a sonhar, mesmo durante o trajeto do ônibus, ou durante aquele trabalho que nunca me satisfez, a não ser na hora de passar o vale refeição no caixa do supermercado. Mas a gente tem fome de outras coisas né?

Acho que vou comer alguma coisinha… Não, mulher, deixa pra depois, porque, se tu parar agora, com certeza a vida vai te pegar e te levar pra outro lugar. Tu não disse que ia mandar e mudar? Que queria sair desse lugar em que te colocaram sem nem te perguntar se tu queria ou não? Agora que tu sabe que não quer mais, vai inventar história de comer? A tua fome é outra, mulher.

Vai, mulher, escreve!

Coloca aí, vai! Tudo o que tu quer e o que não quer, o que tu sonha ou o que te faz acordar, o que te falta, o que te sobra, o que te sustenta, o que te faz cair, o que te impede, o que te encoraja, o que te amedronta, o que te faz seguir…

Vai, vai que uma hora dá certo!

“Acorda, Alice!“Acorda do que te entorpece, do que te paralisa, do que não te faz sonhar!

“Acorda, Alice!” Vem sonhar teu sonho, mas acordada! Que dormir no ponto já não dá mais.

Acorda!

Escrito por: Galbia Angelica Goiana – @galbiaangelicagoiana

Revisado por: Maria Tereza Maia de Assis

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