Enquanto eu penso tanto em como quero que seja a infância da minha filha, às vezes encontro a minha infância e a menina que fui no meio do caminho. Ela aparece quando faço um bolo, quando escolho um livro, quando guardo uma roupa pequena ou quando imagino umamesa cheia de gente para comemorar mais um ano de vida dela.
Outro dia eu estava olhando o guarda roupa da minha filha. As roupas já estão começando a ficar pequenas. Fui tirando algumas peças do cabide, separando o que ainda serve e o que já ficou pequeno, e foi no meio daquela arrumação que eu me lembrei de mim.
Eu não tive um quarto assim quando era criança. Não tive uma estante cheia de livros esperando por mim, nem um guarda roupa organizado com roupas escolhidas pensando em cada fase. Não tive muitos sapatos, nem aquelas caixas onde as mães costumam guardar asprimeiras coisas dos filhos porque sabem que, algum dia, vão querer lembrar do tamanho que eles tinham.
Também não tive grandes festas de aniversário. Na minha casa era mais simples. Minha mãe fazia bolo, fazia pastelão, e estava feito o aniversário. Durante muito tempo, nunca achei que tivesse faltado alguma coisa. Talvez porque criança não fique contando oque não tem. Criança vive o que tem. E eu tive a minha infância, com aquilo que era possível para a minha família naquele momento.
Hoje, porém, olho para a minha filha e penso em algumas coisas que quero fazer diferente. Não porque eu ache que a minha infância tenha sido ruim, e muito menos porque queira consertar alguma coisa que minha mãe fez. É só que agora eu posso escolher.
Posso entrar no quarto dela e colocar um livro novo na estante só porque achei que ela gostaria. Posso guardar uma roupinha que ficou pequena porque, por algum motivo, aquela roupa me lembra uma fase que não vai voltar. Posso pensar no aniversário dela mesesantes e imaginar como quero que seja.
Provavelmente vou pensar mais no bolo do que na decoração. Quero fazer em casa, com um café da tarde, um bolo e talvez um pastelão, porque algumas coisas da nossa infância merecem continuar e virar tradição. Quero também um varalzinho com os rostinhos dela,mostrando como aquele bebê foi mudando ao longo do primeiro ano.
Não quero uma festa para mostrar que ela teve. Quero uma festa para que ela tenha vivido. Acho que existe uma diferença.
Talvez seja por isso que, quando penso na infância da minha filha, eu pense menos nas coisas que ela vai possuir e mais nas coisas que ela vai lembrar. Quero que ela tenha livros, mas quero também que se lembre de alguém sentada ao lado dela lendo a mesma históriapela décima vez. Quero que se lembre de quando a gente para tudo só para olhar a chuva cair da janela ou para inventar uma brincadeira boba no meio da tarde. Quero que tenha roupas bonitas, mas quero que se lembre de ter brincado até sujar alguma delas. Queroque tenha sapatos, mas quero que se lembre dos pés descalços correndo pela casa. Quero comemorar seus aniversários, mas quero estar lá para ver a cara dela quando trouxerem o bolo.
Talvez porque hoje eu entenda que a infância não fica guardada nas coisas. Ela fica nas cenas, na voz de alguém chamando para o café, na mãe sentada perto, no bolo que tinha sido feito para você, na sensação de que alguém estava ali.
Não é que eu esteja tentando dar à minha filha tudo aquilo que eu não tive. Acho que é mais simples do que isso. Estou descobrindo, pela primeira vez, algumas coisas que eu gostaria de ter vivido. E talvez a maternidade tenha essa delicadeza inesperada, a filhacresce diante dos nossos olhos, mas, enquanto ela cresce, a gente também consegue olhar para a menina que fomos.
Com menos cobrança, talvez. Com mais ternura. Não para mudar o que aconteceu, mas para reconhecer aquela menina e entender que ela também faz parte da mãe que estou me tornando.
Aurora: Débora Mariana Stähelin Reis | @psicologadeborastahelin
Revisora: Juliana de Castro Grassmann





