Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Por: Nayara Ferreira

“Filho não atrapalha nada! Tem que ter força de vontade! Mulher não estuda porque não quer!”

É justo ou possível falar de meritocracia para mulheres mães quando o assunto é acesso à educação?

Numa sociedade em que o cuidado e a criação dos filhos são tidos como obrigação unicamente feminina, em que não há vagas suficientes em creches e que o acesso a creches particulares e babás é privilégio de classe, ESTUDAR É PRIVILÉGIO.

Onde apenas 2% das mães adolescentes de 15 a 17 anos continuam estudando e onde a evasão escolar chega à mais de 75% no caso dessas meninas, ESTUDAR É PRIVILÉGIO.

Em que quanto maior a renda familiar, maior o avanço nos estudos, ESTUDAR É PRIVILÉGIO.

Onde quando se trata do ensino superior, em que tão difícil quanto o acesso, é a permanência e a conclusão dessas mulheres, que além de enfrentar dificuldades como inexistência de políticas de permanência estudantil específicas, burocracia para conseguir licença maternidade, exclusão dos espaços acadêmicos que não toleram crianças ou não oferecem estrutura para incluí-las, baixo número de vagas em creches e moradias, machismo, preconceito e a inflexibilidade das instituições, ainda precisam lidar com a culpa, a cobrança da sociedade que recai apenas sobre ela e muitas vezes são forçadas a escolher entre carreira e maternidade, enquanto a carreira do homem é priorizada, ESTUDAR É SIM PRIVILÉGIO.

Fazendo um recorte de raça, onde mesmo com as cotas raciais e o aumento do número de negros nas universidades, o número de mulheres negras matriculadas no ensino superior é baixa, em contrapartida, são maioria entre os trabalhadores terceirizados, mostrando o lugar que nossa sociedade racista e machista quer reservar à mulher negra nas universidades.

O racismo, a desigualdade social, a precarização e sucateamento da educação em todos os níveis, inexistência ou diminuição de políticas de permanência estudantil, cortes no número de bolsas e vagas em programas que favoreceram o acesso do negro e do pobre à universidade, além o ônus de muitas vezes ser a única responsável pela criança (No Brasil, são 20 milhões de mães solteiras, maioria negra e parda) muitas vezes fazem do ensino superior sequer uma opção para maioria das mães negras e pobres, pois precisam trabalhar para garantir sua sobrevivência e da prole.

Então, sim, ESTUDAR É PRIVILÉGIO.

E não, o problema não é a maternidade, tampouco o cuidado ou o trabalho doméstico. O problema começa na divisão sexual do trabalho e no machismo que sustenta essa estrutura que condena mulheres mães à exclusão da educação, do mercado de trabalho e dos espaços políticos, sociais e de lazer.

É o patriarcado dizendo que lugar de mulher é dentro de casa, cuidando da casa e dos filhos sozinha. Não é a maternidade e o trabalho doméstico que precisam ser demonizados, é a sociedade que precisa mudar.

Tão essencial quanto a divisão justa e igualitária do trabalho doméstico e da criação dos filhos, onde HOMENS PRECISAM ASSUMIR sua responsabilidade e quebrar o estereótipo de “homem provedor”, é preciso que o Estado garanta acesso à creches e políticas de inclusão de mulheres mães e filhos, que conscientize e crie leis, incentivos e isenções à empresas que permitam negociar flexibilidade de horários para MÃES e PAIS, creches para filhos de funcionários, estimulem a amamentação e participação dos pais na vida escolar.

Também se faz necessário que o Estado combata fortemente o machismo e a violência contra mulheres e crianças, promova a abordagem e o debate acerca do feminismo e da divisão sexual do trabalho nas escolas e veículos de informação das massas, possibilitando uma nova construção e concepção de masculinidade e paternidade, que crie cursos preparatórios para homens durante a gestação, aumente a licença paternidade/maternidade, promova a guarda compartilhada(sempre garantindo o melhor interesse da criança, claro), a reeducação masculina em caso de irresponsabilidade, negligência e abandono dos filhos e em último caso, penalização desses homens.

Falaremos de meritocracia em relação ao acesso de mulheres mães à educação, quando os homens, o Estado, a sociedade e os homens cumprirem as obrigações e papéis que lhe cabem, e a realidade materna não se resuma àquele provérbio machista que todos repetem diariamente: “Quem pariu Mateus que o embale”.

Lutemos por uma sociedade e uma realidade em que maternidade não seja sinônimo de anulação, sacrifício e apagamento político e social, e que mulheres mães sejam respeitadas em sua individualidade e nos seus direitos básicos, onde estudar é direito garantido e não privilégio. Venceremos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui