E ela se fez mãe…E mestra!

A escrita deste artigo se dá a partir do corpo de uma mulher, parda, de 39 anos, que decidiu retornar à academia. Optou-se pelos relatos de memória “ao rememorar histórias, e aqui mais enfaticamente, a memória de si, acredita-se ser possível a cada estudante encontrar um ponto de partida para a produção de escrita autoral. Falar de si, entretanto, exige confiança, autoestima e sobretudo, afirmação da própria identidade” (Rocha, 2021, p. 8).

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no censo 2022, 55% da população brasileira declarava-se preta ou parda. Traz ainda que 20% da população entre 18 a 24 anos cursavam curso superior. No que se refere ao segmento branco, 29,2% cursavam graduação, enquanto pretos e pardos respondiam a 15,3%.

Entrar em uma instituição pública de ensino, filha de uma mãe faxineira e de um pai pedreiro, desde o início, não se mostrou como uma tarefa fácil. Já no primeiro dia uma colega disse que estava com dor nas costas, pois tinha vindo da França… Cheguei em casa, peguei o atlas e verifiquei a distância, concluindo o quão caro deve ter sido aquele deslocamento… Chorei… Minha mãe disse que ali era meu lugar, pois fiz vestibular como todas as outras pessoas.

Após os percalços em concluir a faculdade, o sonho de fazer mestrado foi ficando para depois, pois precisei trabalhar para custear meus gastos e auxiliar minha família.

Falando de dados brasileiros acerca da inserção feminina na pós-graduação, dados de uma pesquisa da UNICAMP mostram que 51% dos títulos de doutorado, entre 1996 e 2014, foram obtidos por mulheres, contudo, o número de mulheres docentes nas universidades cresceu apenas 1%, de 44,5% para 45,5%.

A vida foi caminhando, inesperadamente, eu me vi grávida… Resolvi ser mãe, profissional e mestra… Fiz a prova de seleção, mas, por um erro na apresentação de documentos, fui desclassificada da seleção…

A pandemia chegou e os desafios de ser mãe e profissional foram ao extremo… Mas com isso também a possibilidade do mestrado via ensino a distância. Afinal, não teria que me deslocar até a universidade e já possuía uma família para cuidar, minha filha, nessa época, com um ano de idade…

Fiz novamente a seleção do mestrado e passei! Foi uma grande felicidade! As disciplinas ministradas por chamada de vídeo trouxeram outros desafios, como: minha filha chegar e as aulas não terem acabado. Assim, em momentos diversos, tive de dividir a atenção entre os conteúdos acadêmicos e a mamadeira… Ou os prazos apertados para a entrega de trabalhos desconsiderando essa jornada tripla. Fui, dolorosamente, vendo que a universidade não cabia meu corpo e minha filha Mariah, mas a gente é resistência!

No levantamento bibliográfico que fiz para construir essa produção, um dos textos traz como chamado: “Preciso de um título, mas são 04h13min”. Penso que isso resume bem os desafios que enfrentei. Assim o corpo é mãe, trabalha e tem que cientificamente produzir, muitas vezes como se não tivesse esses atravessamentos.

Os dias que precisam se alongar para dar conta de todas essas frentes são conseguidos reduzindo as noites de sono… Sim, são 4h13min ou às vezes até antes e, sim, preciso levantar para produzir ciência, porque às 7h minha filha levanta e tenho uma reunião de trabalho às 9h.

Preciso produzir ciência apesar de ser 4h13min, minha filha estar ardendo em febre, eu em um hospital e pensando na dissertação que está atrasada, no relatório de trabalho que o prazo está se encerrando e, naturalmente, se terá uma farmácia aberta para comprar os remédios, visto que o dia, que mal se iniciou, já promete ser extremamente cansativo e preciso garantir que ela tome a medicação…

A pandemia passou e as aulas voltaram ao modelo presencial. Numa tarde, estava eu caminhando pelo campus quando, ao checar o WhatsApp, lembro do aniversário na escola da minha filha, que esqueci e seria no dia seguinte… Momentos de afobação em troca de mensagens com minha cunhada para que providenciasse algo para o colega da Mariah, visto que eu estaria em aula até à noite e, no dia seguinte, sairia cedo de casa para o trabalho.. Preciso maternar e produzir ciência…

A trajetória foi também marcada por momentos ímpares de realização como levar minha filha para conhecer a “sala de aula da mamãe”, levá-la para um evento acadêmico e ouvir, após passados uns minutos, que “isso aqui tá chato” numa explícita demonstração de que a universidade realmente não acolhe a maternidade, a mãe e suas filhas e filhos.

Assim, entendo ser de fundamental importância políticas de acesso e permanência estudantil de mulheres-mães nos programas de pós-graduação aliadas ainda ao reconhecimento dessa condição, maternar uma criança, para a extensão de prazos acadêmicos, além de creches, espaços de recreação em eventos acadêmicos e visibilidade da maternidade na academia. Afinal, ser mãe não consta no meu lattes, mas é, sem dúvida, o maior atravessamento da minha vida, inclusive para produzir ciência!

Por Thalita Melchiades da Silva – @melchiadesthalita

Revisão: Angélica Filha

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

IBGE. Censo 2022: pela primeira vez, desde 1991, a maior parte da população do Brasil se declara parda, 2023. Disponível em https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38719-censo-2022-pela-primeira-vez-desde-1991-a-maior-parte-da-populacao-do-brasil-se-declara-parda

IBGE. Em 2022, analfabetismo cai, mas continua mais alto entre idosos, pretos e pardos e no Nordeste,2023. Disponível em https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/37089-em-2022-analfabetismo-cai-mas-continua-mais-alto-entre-idosos-pretos-e-pardos-e-no-nordeste#:~:text=O cenário por cor ou,foi de 15%2C3%25, acesso em 19 abr. 2024.

LOPES, Pamela Fogaça. Preciso de um título, mas são 04h13min atravessamentos da maternidade em uma autora de teatro. Revista Fixo, n. 8. v. 2019,UFPEL.

ROCHA, Carla Dias. Escrita pela vivência: Memória em Letra reexistindo as identidades. Dissertação de Mestrado, UFBA: 2021.

UNESP. Por que as mulheres são maioria na pós-graduação, mas ocupam menos da metade dos cargos de docência nas universidades?, 2023. Disponível em: https://jornal.unesp.br/2023/03/03/por-que-as-mulheres-sao-maioria-na-pos-graduacao-mas-ocupam-menos-da-metade-dos-cargos-de-docencia-nas-universidades/ . Acesso em 19 abr. 2024.

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