Eu tô aqui

Um dia, trocando a fralda, você falou: “tei”. Foi tão divertido começar a conversar com você. Como na nossa declaração compartilhada: “mamãe te ama daqui até a llllua”, com seus eles enrolados desde bebê.

Você pede para contar: “três, cinco, setee!”. O M de mamãe é um clássico, mas também tem o B de papai e de Picu, o apelido que você escolheu. Os nomes das bonecas — Baliba e outra Baliba. Comer o “machucaba” do pé, tirar o pelo da banana.

Brincar de sussurrar nomes de bichos. Nem consigo escolher meu favorito entre o piquito, o pato flamingo e o sauro sauro. Ouvir você contando histórias da fadinha Pirirambo — “você leia?”. Ler é narrar qualquer coisa, é ficar perto.

Você chama seu pai de “meu filho”, morre de rir, diz que não é a gatinha da mamãe, é o porquinho da vovó. E já sabe a letra G de Gael e do outro Gael.

Chama a aula de musicalização de aula de dança e, pudera, você dança mesmo. Mãozinha para trás, cada passo esquisito, o coelho, o pato, a língua para fora do ratinho, o quadril de um lado para o outro, o agudo tão desafinado e feliz.

Primeiro, tudo o que era difícil tinha o adjetivo “tá duro”. Agora já veio a complexidade do “azedo”, acompanhado de uma carinha explicativa: azedo mesmo.

Você pede a vassoura para trabalhar e também o gôlo, o rodinho que não serve para nada. O paninho da Bibi é só dela. Só você vê a diferença cristalina entre o que é da Bibi e o que não é.

Arruma meu cabelo, coloca a faixa roxa na minha testa e diz que fiquei linda com minha coroa. “Picu que escova o dente, o cabelo, tira a blusa.” “Você me ajuda?”, pede quando cansou de trocar o lado do sapato.

Conta casos e, no meio, para e fala: “tô aqui, eu que falei”, reafirmando seu papel de narradora.

Acorda declarando que dormiu tudo e já é hora de fazer pipioca, com “doisi ovos”. Assim como na feira tem o “doisi mel”, que aumentou para “treisi mel” de uma hora para outra, já que era muito gostoso.

Seus favoritos são promovidos a primos. Às vezes até a mamãe é sua prima. Menos a Áurea, que reina absoluta como amiga predileta, alguém para mostrar o dodói do joelho, pegar na mão e falar: “depois, Aullea”, com toda a maturidade dos seus quatro meses a mais.

Você sabe que o vovô João mora lá no céu e que até você mora lá também. Mas não é para eu ficar triste. Você pega a pomada, pede para eu abrir e pronto: tirou o espinho da minha cabeça.

Na época do desmame, você reclamou que eu não era sua amiga. O tetê era seu, não meu. Depois aceitou, explicou para as duas Balibas que o tetê acabou e passou a pedir para dormir com a Lelê e a Lulu.

Escolhe com firmeza se hoje é o papai ou a mamãe. Papai sabe fazer a dedeira, mas não sabe ficar no cantinho da garagem nem dobrar a toalha do jeito certo, por baixo do braço.

Quando tudo está muito divertido, você diz: “você é doida, mamãe”.

Por Joana Tavares – @joanatavaresc

Revisão: Bibianne Terra

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