A presença de estudantes africanas no ensino superior brasileiro tem se ampliado nas últimas décadas, especialmente em instituições como a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). Nesse contexto, emergem experiências diversas que atravessam não apenas a vida acadêmica, mas também dimensões sociais, culturais e afetivas. Entre essas experiências, destaca-se a vivência de mulheres africanas que conciliam a maternidade com a formação universitária, realidade ainda pouco visibilizada no campo acadêmico.
Este ensaio parte da minha própria experiência como mãe e estudante africana na UNILAB, campus dos Malês, na Bahia. A partir desse lugar de fala, proponho uma reflexão sobre os desafios enfrentados por mães africanas no ambiente universitário, com foco no papel das redes de apoio comunitárias em suas trajetórias acadêmicas. Ao assumir uma perspectiva situada, reconheço a escrevivência como ferramenta teórico-metodológica fundamental (EVARISTO, 2005), permitindo articular vivências individuais e coletivas na construção do conhecimento.
A maternidade, historicamente associada à esfera privada, impõe às mulheres uma série de responsabilidades que frequentemente entram em tensão com as exigências da vida acadêmica. No caso de estudantes africanas em contexto migratório, esses desafios são intensificados pela distância geográfica das redes familiares e pela necessidade de adaptação a um novo contexto sociocultural. A ausência de apoio familiar direto, comum em seus países de origem, exige dessas mulheres a construção de novas estratégias de cuidado e permanência.
Metodologicamente, este estudo se fundamenta em uma abordagem qualitativa, combinando revisão bibliográfica e entrevistas abertas realizadas com sete mães africanas, cinco da Guiné-Bissau e duas de Angola matriculadas em diferentes cursos da UNILAB. As entrevistas possibilitaram o acesso às narrativas dessas mulheres, evidenciando suas experiências, desafios e estratégias de enfrentamento. A análise dos dados foi conduzida por meio da análise temática, permitindo identificar padrões recorrentes e categorias significativas.
Entre os principais desafios relatados, destacam-se a dificuldade de conciliar as demandas acadêmicas com o cuidado dos filhos, a ausência de políticas institucionais voltadas para mães estudantes e as limitações financeiras. A inexistência de creches universitárias, por exemplo, obriga muitas dessas mulheres a recorrerem a redes informais de apoio, frequentemente compostas por colegas, amigas e outras estudantes. Além disso, aspectos emocionais e psicológicos também se mostram relevantes, sobretudo diante da sobrecarga e da pressão por desempenho acadêmico.
Nesse cenário, as redes de apoio comunitárias assumem um papel central na permanência dessas estudantes. Construídas no cotidiano universitário, essas redes funcionam como espaços de solidariedade, troca e acolhimento. São relações que ultrapassam o âmbito acadêmico e se consolidam como estratégias coletivas de sobrevivência e resistência. Embora não substituam políticas institucionais estruturadas, essas redes demonstram a capacidade de agência dessas mulheres diante das adversidades.
A hipótese que orienta este ensaio é que a ausência de suporte institucional adequado, aliada às demandas da maternidade e à condição migratória, impacta significativamente a trajetória acadêmica das mães africanas na UNILAB. No entanto, essas mulheres não são apenas sujeitas passivas dessas dificuldades, ao contrário, constroem caminhos, reinventam rotinas e produzem formas de resistência que desafiam as limitações impostas.
A análise do perfil sociodemográfico das participantes revela trajetórias marcadas por deslocamentos, responsabilidades familiares e expectativas de transformação social. Para muitas dessas estudantes, a formação acadêmica representa não apenas uma conquista individual, mas também um projeto coletivo, voltado para o desenvolvimento de suas comunidades de origem. Nesse sentido, a permanência na universidade se torna um ato de resistência e afirmação.
A literatura sobre maternidade acadêmica reforça a necessidade de políticas institucionais que considerem as especificidades das estudantes mães. Medidas, como a oferta de creches, apoio psicológico, assistência estudantil ampliada e flexibilização acadêmica, são fundamentais para garantir condições mais equitativas de permanência. No caso das estudantes africanas, essas demandas se articulam a marcadores como raça, gênero e migração, exigindo uma abordagem interseccional.
Portanto, compreender as experiências das mães africanas na UNILAB é essencial para a construção de uma universidade mais inclusiva e socialmente comprometida. Ao dar visibilidade a essas trajetórias, este ensaio contribui para o debate sobre permanência estudantil e evidencia a importância das redes de apoio como elementos fundamentais na sustentação dessas mulheres.
Mais do que identificar desafios, trata-se de reconhecer a potência dessas experiências e afirmar a centralidade dessas mulheres na produção de conhecimento e transformação social.
Por Juraima Gomes Fernandes Cá – @juraima_fernandes
Revisão: Angélica Filha
Referência
EVARISTO, Conceição. Da grafia-desenho de minha mãe: escrevivência. 2005.





