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Eu estou meio sumida desse espaço. Confesso que a pandemia me atropelou. Também aconteceu com vocês, não? Aquela expectativa inicial de que tudo iria passar em duas semanas e que a humanidade sairia transformada não rolou. 

O que rolou na verdade foi muito individualismo, ignorância, tragédia. Uma fase difícil que não tem data para acabar. E que atingiu em cheio as mães: estamos exaustas. 

Com as crianças em casa e as escolas fechadas, vimos nosso trabalho triplicar. Mais comida para fazer, louça para lavar, casa para limpar. Seja trabalhando em home office ou fora, vivemos um looping interminável de tarefas a cumprir. E ter essa rotina por um ano abalou a nossa saúde mental.  

Eu oscilei muito nesse período. Tive momentos de otimismo e outros de angústia. Momentos de energia criativa que sumiram em meio ao cansaço. Medo, crises de ansiedade, desânimo.     

Um ano depois do início da pandemia, as palavras de esperança parecem sumir da minha boca. Mas sei que preciso seguir. Precisamos seguir adiante. Somos mães. Temos crianças que dependem do nosso acolhimento, do nosso equilíbrio. E para que a gente consiga viver esse período de incertezas, temos que nos cuidar. Nunca a saúde mental das mães foi tão importante quanto agora. 

Os casos de estresse pós-traumático, ansiedade e depressão e o consumo de remédios psiquiátricos explodiram na quarentena. E de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as mulheres são o grupo mais vulnerável a esses problemas. Especialmente as mulheres-mães que enfrentam hoje uma sobrecarga de trabalho dentro e fora de casa. 

A pandemia escancarou uma realidade que antes ficava escondida nos lares. A falta de divisão nas tarefas de casa, a violência doméstica, as formas como estamos nos relacionando conosco e com o outro. Questões que antes eram deixadas de lado ficaram evidentes. 

Eu sou uma mulher-mãe branca, de classe média. E cheia de privilégios. Tenho acesso a convênio médico, aulas de yoga, terapia, casa e comida. E mesmo assim, tive sérios problemas mentais nesse período. Eu não consigo nem imaginar o que outras mulheres-mães têm enfrentado por aí. 

Lembrei-me esses dias da época em que os meus filhos nasceram. Eu não sabia nada sobre saúde mental e autocuidado. Para mim, relaxar era ter tempo para fazer as unhas ou arrumar o cabelo. E meu psicológico estava péssimo nessa fase. A saúde geral do meu corpo e a minha alimentação também. Eu trabalhava feito louca em casa e também no mundo corporativo. 

Tive então uma crise por esgotamento mental. Desmaiei e fui parar num hospital no meio do expediente. Estava tão exausta e doente que não percebia o óbvio: o tempo para mim era muito mais do que espremer a agenda para ir ao salão cuidar da minha casca. Demorei para entender a importância da saúde mental e como ela nos afeta. 

Dia desses, encontrei uma vizinha que estava com as unhas feitas, o cabelo pintado e as sobrancelhas também. Ela olhou para os meus pés rachados e os meus cabelos brancos. E não se aguentou. Perguntou quando eu ia pintar as unhas e arrumar o cabelo. Eu respondi: assim que a quarentena acabar. 

Eu queria dizer a ela que as minhas prioridades mudaram nos últimos tempos. E que eu já pensei como ela um dia. Mas finalmente entendi o conceito de autocuidado nessa pandemia. Minha terapia está em dia. Minhas meditações, yoga e orações também. E sigo em frente. Respiro, inspiro e assim não piro.    

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