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Eu estava completamente desconectada do meu corpo. Sabe aquelas mulheres que colocam o trabalho e a carreira como prioridades e deixam a saúde pra lá? Eu era assim. Até virar mãe. Foi aí que eu percebi que precisava rever a minha vida. Porque nessa avalanche de mudanças que é a maternidade se a gente não se cuida, adoece. A doença sempre começa no emocional até atingir o físico. E de repente.

Eu tinha voltado da licença-maternidade há dois meses. No trabalho, já passava por uma cobrança de voltar a “produzir” como antes. Sim, antes de ter filhos, eu era uma máquina muito produtiva. Meu corpo gritava para que eu cedesse, mas eu não deixava a peteca cair. Como resultado das jornadas longas de trabalho, tinha insônias e crises de ansiedade.  Mas me entupia de remédios e seguia em frente.

Depois que meu filho mais velho nasceu e eu voltei a trabalhar, vi que as coisas tinham mudado. Eu estava exausta e lutando para voltar ao ritmo frenético de antes. Mas meu corpo não aguentou.

Sou jornalista e durante o fechamento de uma matéria importante tive a pior cólica da minha vida. Passei muito mal. De tanta dor, desmaiei. O médico do ambulatório achou que eu estivesse grávida de novo e abortando. Fui levada às pressas para o hospital. 

Eu estava tomando aquelas pílulas de uso contínuo, que deixam a mulher completamente desligada do próprio ciclo menstrual. Aquilo pra mim foi uma bomba de hormônios. A pílula provocou espinhas e cólicas.

Mas a cólica que me levou ao hospital foi diferente. Não foi um aborto ou por causa de algum problema ginecológico. Os médicos não diagnosticaram nada. Mesmo assim, fiquei três dias a base de analgésicos. Hoje, cinco anos depois, eu sei o que eu tive. Foi um ataque de pânico. 

Era meu corpo exausto pedindo uma trégua depois de sete anos tomando anticoncepcionais, se alimentando mal, dormindo mal e me esquecendo dele. Ele falava comigo. Mas eu não ouvia.

Na época, eu senti muita raiva de mim por não dar conta da nova rotina. Senti raiva e vergonha. Ainda mais quando voltei ao trabalho e descobri que tinha sido transferida de setor. Eu não era mais a máquina produtiva de antes. E percebi minha vulnerabilidade. 

Um ano e meio depois dessa crise, as coisas mudaram ainda mais. Eu tive a minha filha caçula. Passei os dois primeiros anos de vida dela muito cansada e doente. Então, finalmente pedi demissão e resolvi cuidar de mim. Eu queria entender mais sobre o meu corpo para curá-lo.

Parei de tomar anticoncepcionais e comecei a pesquisar sobre ginecologia natural. O assunto tem sido destaque na internet numa época em que temos falado cada vez mais sobre sagrado feminino e autocuidado. 

A ginecologia natural nada mais é do que uma abordagem holística e integral da saúde da mulher. Propõe a reconexão com o ciclo menstrual através da auto-observação e de anotações sobre como você se sente em cada fase do ciclo, a chamada “mandala lunar”. Sim, somos cíclicas como a lua e é interessante notar como a nossa natureza está interligada às fases lunares. 

A própria palavra menstruação deriva do latim mensis (mês), que por sua vez é uma palavra relacionada a mene que significa “Lua” no grego antigo. 

A mulher urbana se desconectou do próprio corpo e dos movimentos cíclicos da Lua, da Terra e da Natureza. A ginecologia natural vem com a proposta de fazer essa reconexão tão necessária nesses dias turbulentos. 

Nosso desligamento do corpo e da Natureza tem levado às doenças, tragédias e destruição ambiental. Cuidar de si e do meio ambiente em que vivemos é o caminho de cura. Cada uma no seu tempo, mas alguns gestos nunca podem ser considerados pequenos. O importante é fazer o que está ao seu alcance.

Eu, por exemplo, deixei de usar absorventes descartáveis que iam para o lixo e aderi aos de pano. Uso cosméticos naturais, alguns feitos em casa mesmo, com óleos e ervas. Reciclo meu lixo e sou adepta do consumo consciente. 

Quando não estou bem, faço tratamentos com chás e florais. Passei a entender que meu corpo é meu lar interno, que precisa de cuidados e carinho assim como meu lar externo, o planeta.       

Eu aprendi a ouvir o meu corpo. A maternidade fez isso comigo. Fez-me parar e enxergar a mim mesma e também tudo ao redor.

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