Dissociada

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*Meu filho dorme no carro. É uma festa e eu só vou me despedir de uns amigos antes de ir embora. 

É rápido. Perco a noção do tempo, esqueço o que estou fazendo. Quando volto, ele sangra, se batendo, gritando, tentando sair.

** Estou com meu filho bebê na janela do prédio. Olhamos a rua. Olho o céu. As nuvens. 

Ergo ele no alto. Mais alto. As nuvens. A grama lá embaixo. Meu filho, meu anjo. Voa! Vai pro céu. Largo.

*** É uma clínica. Reconheço. A cada pessoa de branco, o mesmo desespero para que me ouçam. 

“É o meu filho! Tá com ele e eu tenho que salvar! Por favor, eu não tô louca! Eu só preciso ver o meu filho. Foi ele que me prendeu aqui para ficar com o meu dinheiro. Ele nem deve tá cuidando do meu filho. Por favor! Eu só preciso saber que ele tá vivo, que ele tá bem!” Braços que seguram. A agulha. “Pronto. É só pra tu ficar mais calma. Teu filho tá bem, sim, estão cuidando dele até tu ficar boa”. 

Durmo sonhos confusos. Não sei quanto tempo passou. Tenho agora uma boneca na mão. 

Embalo ela. Mmmmm mmmmm. Sussurro, bem pertinho: 

“Filho, que bom que tu tá bem. Tua mãe te prometeu que ia cuidar de ti. Viu como a mãe sabe cuidar de ti? Eu sabia que conseguia”.

Não ouço o que o médico diz. Mentira. Ouço. Mas não vou deixar que ele saiba o que se passa na minha cabeça. Eu sei que não tô louca. Esse médico acha que pode me enganar. 

Mas eu é que sei exatamente tudo que tô pensando. 

Eu sei.

Nessa semana fui apresentar um trabalho em um congresso de outra cidade pela primeira vez desde que meu filho nasceu. Ele tem quatro anos e sou mãe solo. Uma mãe que conseguiu sair de um relacionamento abusivo. Que conseguiu dar fim a múltiplos tipos de violências. A ameaças veladas, contínuas e duradouras. Que parou de tentar que reconhecessem o quão profundas eram suas cicatrizes e apenas seguiu. 

Organizei minha apresentação. Arrumei mochila, almoços, lanches, brinquedos, remédios. Tudo o que meu filho precisaria por três dias. Arrumei minha mala. Quando fui me despedir da minha irmã — quem cuidaria do meu filho durante minha ausência —, a frase saiu espontânea: “Que bom, né? Tô indo para um congresso e não tô sendo internada”.

É que, sim, também sou uma mãe que sofre de Transtorno Afetivo Bipolar. A primeira vez que passei uma semana longe do meu filho foi durante as festas de Natal e Ano-Novo, quando estive internada em uma clínica psiquiátrica, após um quadro de dissociação da realidade. Em outras palavras, psicose. 

Essas cenas que descrevi são pesadelos que tive, mas antes de tudo também são medos. Medos que envolvem uma mãe que sabe que existe a realidade-realidade e a realidade-criada-na-minha-mente-que-gera-ideias-incríveis-e-verossímeis-e-que-parece-uma-realidade-mais-incrível-que-a-própria-realidade (mas-que-só-eu-enxergo). E para ir de uma para a outra, basta pular um muro. Que nem sempre é tão alto assim.

Corriqueiramente as pessoas dizem: “Fulano parece bipolar, tá sempre mudando de humor”. Elas não sabem. Se soubessem, não diriam. Não sabem da luta constante para viver em sociedade, para trabalhar, para cuidar de uma criança. Uma criança que tu ama com cada fibra do teu corpo, com cada orgulho ao ver ela se tornar quem é. Mas que provoca, a todo instante, a perda de paciência, a irritação e até uma alegria extrema. Porque sim, a alegria também pode ser um perigo. É sentir tanto, tanto, tanto a vida que ela não cabe mais em ti. A ponto de extrapolar, vazar, até te colocar num balão de hélio multicolorido, que uma mão apenas solta. 

Estou há mais de um ano eutímica. É o que confirma a psicóloga. Humor equilibrado, estável. Tomo as medicações, vou à psiquiatra, faço terapia semanal. Faço exercícios. Evito situações que sei que podem ser como um gatilho para a mania. A escada para pular o muro. 

Nos três dias de viagem, meu filho ficou muito bem. Mas, na noite em que voltei, ele decidiu, entre lágrimas que realmente caiam, que queria mamar em mim. Um fato importante é que ele só havia mamado no peito até os três meses devido às medicações para estabilizar o humor. É claro que, no auge dos seus quatro anos, ele não queria de fato mamar. Ele queria dizer, do modo que conseguia, que precisava de mim. Que só eu podia lhe dar o leite da proteção e do aconchego. 

Depois que a situação passou, não pude deixar de pensar: Ele lembra. Ele tinha dois anos, mas ele lembra que ficou longe de mim. Que minha família estava cuidando dele em casa e que eu estava, em algum lugar do meu sub-in-consciente, tentando voltar para a realidade em que ele de fato existia. 

Filho, eu também lembro. E pior do que essa lembrança é pensar o depois. É pensar se isso um dia vai acontecer de novo, agora que tu já entende. 

Será que tu vai pensar que é culpa tua? 

Será que tu vai ter medo de ser como a tua mãe? 

Será que as tuas cenas de pesadelos e medos também vão ser assim tão sufocantes quanto as minhas?

São as memórias-dores que ficam conosco. Que nos acompanham mesmo que a gente não lhes dê água ou fermento. É a mala da viagem do congresso que sabe que já foi também para a ala psiquiátrica. É o passaporte de vida que, junto com as viagens e as informações pessoais, vai trazer, em letras permanentes, os dizeres: (possível) dissociada.

Autora: Marina Martins
Revisão: Laura Bonruck 

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