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Resolvi escrever. Achei prudente. Não, na verdade resolvi escrever, pois estou desesperada mesmo. Tenho lido e ouvido vários relatos de mães cansadas, exauridas de suas forças e algumas chegando à beira da loucura. Por isso, resolvi escrever. Pois eu sou mãe. E também estou ficando assim.

Existem vários tipos de mãe. Mas não no tocante à como cuidam dos seus filhos, maridos e etc., mas vários tipos de mulher-mãe. Quando pensei na maternidade, um dos primeiros artigos que li dizia algo do tipo, “quando nasce uma criança, nasce uma mãe”. Disse bem… Nasce. A criança nasce pronta, sabendo fazer tudo, falar e entender? Não. A mãe também não. Parece óbvio, mas não funciona bem assim quando o assunto é a pressão da sociedade sobre a maternidade.

A meu ver, a maternidade nunca foi tão desrespeitada como o é ultimamente. Desrespeitada desde o seu sentido mais puro, da gravidez ao parto, e além. Como assim, “e além?”. Vou explicar-me. Um belo dia de domingo estava eu (querendo estar) descansando, curtindo minha filha, passeando e etc., mas estava eu trabalhando. Atendendo a um cliente em sua casa. Como não tenho babá e já quase morro duas vezes para pagar a creche e conseguir trabalhar durante a semana, não tenho marido nem ninguém que se disponha a vir ajudar dessa forma. Levei-a para a reunião.

Entre umas decisões aqui e outras ali, uma puxada na blusa acompanhado de um “mamãe qué mamá” e outras “mamãe qué brincá” , após umas três horas e meia consegui finalizar a reunião e ir pra casa descansar… Ops, só que não. Pois, nós mães chegamos em casa aí tem louça, roupa suja, pia suja, dar banho, fazer comida, dar de mamar, colocar para dormir (ou tentar por umas 5x até a exaustão nossa) e acabou o dia (e todas as noites se você ainda
amamenta e não consegue tirar do peito ainda. My bad!)E olha que esse dia, acabou tudo bem. Juro!

Outro dia, na casa deste mesmo cliente, já ao fim do serviço, eles nos chamaram para ficar mais e lanchar, trocar um papo leve etc. Minha filha estava tranquila, brincando com os bonecos do filho deles, então fiquei. Lá pelas tantas, entramos no assunto de casamento, filhos e etc. Esse meu cliente queria fazer uma pergunta pessoal, mas não sem antes me alertar: “olha, não é machismo… Mas sabe como é, eu sou cearense e tal”. E ainda completei num tom de brincadeira, claro “cearense e militar! Pode vir, estou pronta (risos)”. E ele começou a falar sobre a maternidade nos dias de hoje, da mulher que trabalha. Só para dar contexto ao que estou tratando aqui, ele é casado, sua esposa é do lar e eles têm um filho de aproximadamente 10 anos de idade. Em outras palavras, ele perguntou: “você não acha que o feminismo atrapalhou um pouco a mulher que quer ter família e filhos nos dias de hoje? Digo, pois eu vejo a sua dificuldade em parte, filha pequena, tem que trabalhar fora e etc. Mas veja, eu não sou contra o feminismo, mas acho que a coisa foi feita da forma errada”.

Olha gente, em primeiro lugar, sem mimimi, tá? Eu sei que várias pessoas vão levantar questões sobre feminismo, criação, machismo, trabalho e etc. Mas, a grande questão não é essa. Esse cara foi criado assim. Para quem não conhece um nordestino de perto, esses caras foram criados para serem “cabra-macho”, mas traduzindo a expressão, foram criados para serem homens fortes que sustentam a família, trabalham, enquanto a mulher cuida das crias.

Mas, também foram criados para respeitar a mulher, serem corteses, coisa que 99,9% dos homens de hoje não são. Eu tive de oportunidade de namorar um nordestino brevemente. Ele abrir a porta do carro para eu descer, não me deixava pagar a conta e seu oferecesse em fazê- lo se sentia ofendido e não vejo mal nenhum isso. Afinal, quem não gosta de ser bem tratada? Enfim, o que estou realmente querendo dizer aqui é que percebi que esse meu cliente se sensibilizou com a minha situação e tentou imaginar por um segundo como seria a minha vida, diferente da mulher dele que trabalha somente em casa e cuida do filho (não que seja pouco, cuidar do filho por si só já é uma obrigação gigante). Mas, cá para nós, aonde foi que assinamos que trabalhar fora e ainda ser mãe, esposa e cuidar da casa seria normal, saudável?

Hoje em dia trabalho como autônoma por não ter escolha, fui demitida da empresa em que trabalhei por 6 dos meus 10 anos de profissão já vai fazer 1 ano. E não é fácil. Quando trabalhava de carteira assinada, assim como toda funcionária comum, tive que deixar minha pequena na creche cedo, por volta dos 4 meses e meio de idade para voltar a trabalhar. E senti na pele o que dizem sobre o sentimento de “ter de trabalhar como se nunca tivesse tido um filho e criar um filho como se não tivesse de trabalhar”. Todas as mães sabem que o primeiro ano é um dos mais difíceis porque os pequenos não param de adoecer. Junte isso a uma cidade horrível feito Brasília em que boa parte do ano marca-se 30%, 20% de umidade e isso faz com que se tripliquem os problemas respiratórios e o desastre estará formado.

Fazendo uma pausa, eu escutei de uma pediatra uma vez que ela tinha uma colega de profissão nordestina e que lhe perguntaram se ela não tinha vontade de voltar para sua terra natal. Ela disse que não, pois, o que ela ganhava no nordeste em um mês, aqui ela tirava em uma semana, “graças” ao maravilhoso clima de Brasília que fazia chover criança na ala pediátrica na época da seca.

Enfim, minha filha adoeceu e do meio para final de um dia de expediente a creche me ligou dizendo que ela estava com 38,5 de febre. Automaticamente como qualquer mãe, eu me dirigi à minha chefa e comuniquei o ocorrido, dizendo que eu
havia de ir busca-la. A resposta foi: “mas ela tá ruim mesmo? Não tem como o pai buscar?”. Tirando a vontade de imediata de dar uma voadora nela neste momento como num filme de caratê, eu disse que não, que tinha de ser eu, afinal ela era muito nova e eu amamentava ainda. Eu não tinha nenhum compromisso urgente de trabalho, poderia compensar as horas depois (mesmo não sendo obrigada a isso). Mas ela achou ruim. Eu liguei o “F” e comuniquei “estou indo” e “tchau”.

Já sei que vocês vão achar que ela é insensível, pois não tem filhos, mas, ela tem. E são dois. A diferença está em que, e percebi depois de mais contato com ela, o marido dela é funcionário público e ele tem mais flexibilidade do que uma gerente em empresa privada para sair mais cedo do serviço e buscar o filho doente na escola. Mas isso diminui a capacidade de compreensão dela sobre os outros? Não. Mas a escolha é dela. Compreende-se ou finge que não. No meu caso, diante da circunstância eu literalmente fingi demência e abstraí-me.

Ah, mas antes mesmo do nascimento da minha filha, teve toda uma história que faz parte da conversa que tive com meu cliente nordestino-cearense-militar-anti-feminista (rsrsrs). A empresa em que eu trabalhava começou a ser impactada pela crise e começou a realizar várias demissões. Isso mal começou e eu já podia ouvir nos corredores (de gente que eu nem conhecia) “ah, mas a fulana não vai ser demitida SÓ porque está grávida”, “a fulaninha tem imunidade” entre outras. Gente, vamos ser claros aqui? A gravidez não nos torna burras muito menos surdas, ok?

Então, na terceira vez que ouvi a piadinha ao passar no corredor, voltei e me virei para esta criatura (estagiária e mãe!): “Querida, se a empresa quisesse me demitir, já o teria feito. Mas não se preocupe que a minha imunidade é temporária, depois da criança nascer, se eles quiserem, no tempo legal, podem fazê-lo. Beleza?”. Ficou toda sem graça e não tocou mais no assunto. Por que será?

Depois da minha licença maternidade eu voltei para trabalhar com frio na barriga, pois algumas colegas nada colegas ficavam insistindo em dizer que eu seria demitida logo quando voltasse. Pagar minhas contas ninguém quer, mas que tal dar um conselho, né? Cada uma!

Enfim, voltei. E logo que voltei estava cheia de serviço no começo da semana. Coisas que clientes da empresa pediram para deixar parado para eu resolver quando voltasse. Todo mundo pasmo e aquelas aranhas caranguejeiras disfarçadas de colegas de trabalho com a cara no chão frio, gelado e cinzento do escritório. O fato é que fui demitida sim, mas somente um ano depois de voltar. Ainda tentaram permanecer comigo me mudando de contrato várias vezes, mas assim como outros colegas, fomos escolhidos por falta de orçamento para manter os funcionários de nível superior. Fui convidada para permanecer parceira da empresa como prestadora de serviços, o que sou até hoje.

Eu vivi o céu e o inferno esse ano. Perdi meu emprego, três semanas depois o pai da minha filha pediu para se separar. E fui da casada e feliz para a mãe solteira desempregada e traída num estalar de dedos. E te digo uma coisa: existe grupo das mães, das mães da igreja, das mães da creche, das mulheres casadas, das vovós, das titias… De tudo. Mas não existe o grupo das mães solteiras. Nós somos deixadas de lado sim, somos julgadas o tempo todo. “Não teve condições de manter o casamento”, “não deve ter sido uma boa esposa e ele desistiu” entre outras pérolas que nem precisam ser ditas, basta olhar nos olhos de quem nos fita da cabeça aos pés.

Uma das coisas que mais nos deixam loucas são os rótulos depois de sermos mães. Pois, ninguém lembra que existe lá dentro uma pessoa ainda. Não somos somente mães. Somos mulheres, com expectativas, desejos, como qualquer uma.

 

Uma mãe nasce quando nasce uma criança? Sim. Mas não nos tornamos mães de imediato. Leva-se tempo, assim como se leva tempo para atingir a maioridade, a ser senil. Uma mulher pode tornar-se mãe em 6 meses, 1 ano, 10, 20, 30 anos. Pode nunca chegar a sê-lo. Só vamos saber se tentarmos. Exercício diário de paciência. E haja paciência. Não com os filhos, digo, com os filhos também, mas principalmente com o que a sociedade nos exige hoje em dia.

Então, depois de muita conversa e troca de experiências daqui e dali eu disse ao meu cliente: “É difícil? Sim. Alguém me avisou que seria assim? Não. Mas aconteceu. E agora eu, somente eu tenho que tocar o barco, pois somos só eu e ela”. Ele se virou e disse ; “ Ah, mais você nova, vai casar de novo…”. Quem sabe? Casamento é parceria. E isso está difícil hoje em dia.

No momento eu só consigo pensar nas contas que tenho de pagar, nas fraldas, na saúde da minha filha. Namorar? Não tenho tempo nem para dormir. Mas, os filhos crescem. Vamos ver o que será. Vou fazer o quê, desistir? Eu tenho uma filha, é uma obrigação tremenda e ela não pode me esperar estar pronta para criá-la. Isto é fato. Assim como o mundo não espera para juntarmos nossos cacos e conseguirmos ser um SER novamente. Eles também não esperam. Não podem esperar, pois crescer é inevitável.

Mas, um recado para as mães. Mães, não desistam. Vocês possuem a profissão mais difícil e desvalorizada, mas ao mesmo tempo mais realizada que existe: a formação de um ser. Não existe nada no mundo mais profundo do que isso. Força e vamos que vamos. Mesmo quando não se tem marido, mesmo quando não se tem mãe ou amigos para ajudar, respira fundo e vai. Ele, seu filho ou filha, só tem você como mãe. Grande parte do que ele será ou deixará de ser se espelhará em você. As paredes podem ser pintadas de novo como dizem, mas o momento que você está vivendo com seu filho agora é único. E o tempo não volta.

 

Autora:

J.D ( A autora prefere não se identificar)

1 COMENTÁRIO

  1. Texto machista do começo ao fim. Tanto quanto o omi que “fica ofendido” quando se depara com a realidade de que a mulher também tem dinheiro pra pagar a conta e não precisa dele pra nada. Até porque a ideia de que a vida da mulher que depende financeiramente do marido só é mais cor de rosa do que a da mãe solteira porque O PAI não está fazendo a sua parte,e não porque “o feminismo” atrapalhou a vida de alguém.

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